Narrado por Miley:
Eu estava entediada. No entanto, sorria como se estivesse
entre os meus melhores amigos, me divertindo demais. Havia uma coisa
interessante em estar no meio de gente poderosa e ao mesmo não pertencer e nem
querer pertencer ao mundo deles. Você começa a observar e eu acabei me tornando
uma boa observadora.
Era muito sutil, mas era absolutamente notável a olhos um
pouco mais atentos, e as trocas de olhares entre a esposa de um dos sócios do
Blaick e o seu mais novo assistente pessoal não me passou despercebida.
Ela tentava evitar e ele também tentava, mas a cada nova
tentativa, falhas terríveis de ambas as partes. Os outros também perceberiam se
não estivessem tão concentrados em conversas egocêntricas e exibicionistas,
cada um ali tentando contar mais vantagem sobre os tenros bilhõezinhos a mais em
suas respectivas contas bancárias.
Havia alguma coisa entre eles os dois que eu não poderia classificar
o que era. Não se tratava de desejo ou lascívia de qualquer tipo, era mais como
um olhar recatado entre pessoas que já se conheciam antes.
Pessoas que se conheciam e que tiveram alguma história.
Tentei imaginar alguma possibilidade, mas nada me pareceu
realista o suficiente e eu desisti.
Blaick como o anfitrião estava sentado na cabeceira da mesa
e eu estava ao seu lado direito. Do outro lado estava um amigo seu, acompanhado
por Olivia.
Todos os distintos cavalheiros presentes nesse jantar haviam
trazido companhias como eu, que podemos classificar como: não oficiais, só para
sermos mais respeitosos com a estirpe de algumas das criaturas assentadas à
mesa, ou então companhia nenhuma, com o intuito de aproveitar ainda mais o que
Las Vegas tinha a oferecer.
Não me entendam mal, não tenho nenhum tipo de preconceito
com prostituição, seja ela barata, cara ou de qualquer outro nível. Mas
amantes, essas me deixavam enjoada. Sentiam-se as próprias esposas, melhores
que elas até. E o que era mais inaceitável pra mim: Não cobravam. Exceto o que
o pobre idiota da vez lhes dava de presente, o que em alguns casos não era
pouco.
Mas não era só isso que me incomodava nelas, preciso
confessar. Eu sei bem o que sou e não tenho problemas quanto a minha profissão.
Sou prostituta, simples e claramente. Sou paga por uma transação: dar prazer e
pronto, é só isso. São apenas negócios.
Acho que é por isso amantes me incomodam. Elas perdem a
noção do que são e querem ser algo mais, algo que não podem ser, algo que não
são. E elas não negociam. No entanto, no meio em que eu vivo não eram poucos os
casos em que as amantes terminavam por usurpar o lugar que elas achavam que era
seu por direito.
Olivia era uma dessas. Eu a conhecia, pois assim como eu ela
já foi uma das garotas de John.
O cafetão era famoso por conseguir as melhores garotas, as
mais bonitas, as mais resididas, desenroladas e sexys e também por prepara-las
para serem pontuais, compreensivas, resignadas e discretas, principalmente
discretas. Se um homem queria pagar por um serviço de qualidade o John oferecia
o que existia de melhor, a um preço bastante abusivo é claro.
Exclusividade custa caro, mas a maioria desses homens sabe
disso.
Mas as garotas de John eram um artigo de luxo. Todos
queriam, poucos podiam pagar. Algumas garotas chegavam a custar a bagatela de
U$ 5.000,00 por noite.
Lembro-me quando conheci Olivia, ela era claramente um dos
mais caros artigos de luxo dos quais John dispunha. Inclusive, era ela quem
atendia o meu principal cliente atual, Richard Blaick. O que explica o desafeto
da moça com a minha pessoa, a partir de quando Blaick passou a preferir ser
atendido apenas por mim.
Olivia passou a odiar-me e eu achei que era só por causa do
dinheiro. Como eu disse, o Blaick costuma ser bastante generoso. Mas não era
isso, ela queria mais, ela queria ser a amante. Não sei se foi por isso que
Blaick preferiu desfazer-se dela, e tão pouco me importava, mas Olivia também
não ficou chorando pelos cantos. Ela tratou de correr atrás do prejuízo e
conseguiu se tornar amante de um outro bilionário amigo de Blaick em pouco
tempo.
E ali estava ela tomando champanhe e conversando entre
trejeitos e risadas ensaiadas. Não vou mentir, a vadia se encaixava
perfeitamente ali, no meio da alta sociedade. Talvez até melhor do que a esposa
que trocava olhares com o assistente.
Aquele era o seu habitat natual.
A ex garota de programa era toda cheia de delicadezas com o
meu cliente e eu não me importava nenhum pouco. Não compartilhava das ambições
de minha rival e tão pouco achava que ela seria um problema com o qual eu
tivesse que me preocupar. A esposa dele talvez, mas eu não.
Um pouco mais ao centro da mesa, enquanto o marido ainda
tratava de negócios com os demais, a esposa deixou a mesa primeiro sob o olhar
bastante atento do assistente, que cinco minutos depois também pediu licença.
Poderia ser só coincidência.
Poderia não ser.
Não era da minha conta, de qualquer forma.
Olivia estava cada vez mais ousada. Vi seu toque “casual” no
ombro de Blaick e quase ri. Não sabia se dela ou do idiota tapado que a
acompanhava, mas quis rir de um deles. Levantei-me e cochichei ao ouvido de
Blaick, roubando sua atenção dos demais só para chatear a vadia e depois segui
para o banheiro para retocar a minha maquiagem.
Eu ainda ria da cara de cu que a Olivia fez quando Blaick
colocou a mão em minha cintura e disse: “Não
demore, linda. Estarei esperando. ”
Ela tinha ouvido.
Sei que ouviu...
- Nick, eu sei, eu também te amei muito, mas agora estou
casada e estou feliz! – A mulher parecia tentar convencer mais a si mesma do
que ao assistente.
Ela era ruiva e tinha olhos castanhos bastante expressivos.
Era bonita sem nenhuma característica tão marcante ou especial, a não ser o
corpo espetacular. Se não me engano, ela havia dito em algum momento do jantar
que era bailarina. Ainda assim sua feminilidade me aparentava ser seu melhor
atributo.
-Tem certeza? – Ele questionou ao sentir sua insegurança. –
Esse cara pode ser milionário, mas eu duvido que ele te faz tão feliz quanto eu
te fiz! – Ele deu um passo na direção dela. Não. Ele não vai... – Você foi a
melhor namorada que eu tive!
- Namorada? – Eu tapei a boca, mas infelizmente só depois
daquilo já ter saído.
Os dois se afastaram subitamente e eu quis sumir,
simplesmente. A moça apressou-se em sair dali.
- Dani! Por favor, não vai! – O assistente pediu, mas ela
nem se quer olhou pra trás.
Eu tinha razão. Eles já se conheciam e tinham uma história,
um namoro. Mas pelo visto, não acabou muito bem.
- Eu sinto muito. – Disse incerta, enquanto o assistente
passava as mãos pelos cabelos, completamente frustrado – Não foi intencional,
eu só queria ir...
- Tudo bem, não importa! – Ele me interrompeu. Foi um
mal-educado, mas iria deixar passar. Ele estava bem mais na merda do que eu.
Eu apenas voltei a seguir o meu caminho.
- Ei! – Ele chamou e eu me virei. Ele se aproximou – Lola,
né? – Quis confirmar meu nome e eu assenti – Será que pode, por favor, não
comentar sobre isso com ninguém? Não quero que Dani se sinta desconfortável.
Ela é uma mulher casada, mas não quero que pense que ela é como... – Ele mesmo
se interrompeu, provavelmente medindo suas palavras.
“Como você” ele diria isso?
Uma mulher como eu...Eu quis rir, mas não tinha a menor
graça.
- Olha, não quero ser rude, mas não me interessa. –
Interferi enquanto ele ainda procurava a conclusão da sua frase - Não estou
aqui pra saber da vida dos outros e por mim, eu nem se quer os vi aqui. Tá bem
assim? – Perguntei e ele assentiu.
- Obrigado. – Agradeceu e eu torci o nariz e saí da sua
frente rumando novamente ao banheiro.
Encarei meu próprio reflexo no espelho e tirei o batom
vermelho da minha clutch.
Desde que eu vi esse cara, o assistente, como era mesmo o
nome? Ouvi Richard chama-lo umas duas ou três vezes, mas não lembrava... A
bailarina também disse o nome, como era? Nick, acho que é isso. Não importa,
desde que o vi pela primeira vez, tem algo nele que me incomoda e sempre que
nós trocamos qualquer palavra, ainda que seja a mais trivial, o jeito como ele
me olha e fala comigo me faz sentir raiva instantaneamente. É principalmente o
jeito que ele me olha, com toda essa altivez. Ele sabe quem eu sou, ele viu
tudo aquilo na outra noite e acha que sabe exatamente quem eu sou. E ainda por
cima se acha melhor do que eu.
Não é o primeiro, com certeza não vai ser o último.
De qualquer forma, eu ainda vou sair desse final de semana
U$ 75.000,00 dólares mais rica, então, está valendo a pena.
Narrado por Nick:
Eu vi os sócios um a um deixarem a mesa de jantar. Alguns
seguiram para os respetivos quartos, outros para o cassino na companhia do meu
chefe. O Harris no entanto, foi educado e esperou pela esposa até que ela
decidisse como gostaria de encerrar a noite.
Ela pediu pra irem pro quarto e eu senti o ar ficar
rarefeito, mas aparentemente foi só pra mim.
Eu queria olhar pra aquele casamento de conto de fadas de
merda e achar um defeito se quer, mas o senhor e senhora Harris não só
aparentavam como eram o casal perfeito. Peter era um indubitável cavalheiro, puxava
cadeiras e abria portas, até colocava o xale de seda de volta sobre os ombros
da garota que eu amava.
A garota que eu ainda amava.
E como eu a amava.
Ela agradeceu a gentileza e ele deixou que suas mãos
deslizassem em seus braços, acariciando sua pele.
Eu quis morrer.
Uma morte lenta e dolorosa.
Retire-me antes de ver o beijo que trocaram.
Eu segui para o cassino só por que não queria voltar pro meu
quarto e passar a noite sozinho pensando na minha ex-namorada do colégio que
acabou virando a esposa troféu de um ricaço qualquer. Cheguei a tempo de ver a
principal mesa de pôquer do cassino do hotel formada por Blaick e seus amigos.
Eles eram 4 e as apostas eram altas. Era apenas a segunda
rodada e o valor de aposta já era U$ 10.000,00 por cabeça. Até onde eu sabia o
Blaick era um grande apostador e esse era o jogo favorito dele, sempre vencia.
Nada muito diferente da vida real. Meu chefe parecia ter nascido pra vencer em
qualquer coisa que se metesse.
Aproximei-me.
Apenas duas garotas permaneciam com o grupo de apostadores:
Lola recostada a cadeira de Blaick e a namorada metida de um dos sócios, também
recostada em sua cadeira, estrategicamente posicionada ao lado da cadeira de
meu chefe. Acho que o nome dessa outra mulher é Olivia.
Eu era apenas um expectador. Nunca havia visto ou jogado
pôquer com apostas tão altas. É claro, que já havia jogado o jogo antes,
principalmente nos meus anos de universitário, em que strip pôquer era a
sensação. E eu fiquei bastante bom nisso, por motivos óbvios.
A verdade é que o raciocínio lógico e matemático facilitavam
bastante o jogo. O objetivo era simples, você receberia suas duas cartas
exclusivas e cinco cartas eram expostas na mesa. O jogador deveria montar sua
jogada como quisesse, com a melhor combinação que pudesse conseguir levando em
conta não só as suas próprias cartas, mas as da mesa. Considerando que o jogo
se dá em quatro turnos de apostas e que são apenas 52 cartas que compõem um
baralho, também sabendo que há um quantitativo x de jogadores, cada um com uma
mão inicial de 2 cartas diversas cada, fora a composição da mesa e mais a pilha de saque/descarte. A partir
disso, tudo que era necessário era prestar atenção as apostas e calcular as
variáveis, tomando base das probabilidades através das informações dos próprios
jogadores. Por exemplo, quem apostasse mais alto tinha mais possibilidade de
ter cartas combináveis com as da mesa e a partir daí você formula as possíveis
combinações, pra isso basta conhecer os tipos de hierarquia das mãos e pronto.
É o tipo de coisa que é mais complicado explicar do que
fazer.
A partida acabou e mais uma vez o Blaick saiu vencedor,
arrastando U$ 40.000,00 em menos de vinte minutos e sem nenhum trabalho, apenas
diversão. Ele pediu e Lola lhe acendeu um charuto. Aproveitou-se para
acaricia-la, nada chamativo demais, ele apenas deslizou a mão em seu pescoço e
ombro em uma carícia leve enquanto ela lhe oferecia o fogo e um sorriso que
deveria ser muito bem ensaiado para esse tipo de evento.
Dois dos homens pareceram bem menos dispostos a prosseguir
tendo visto do que Blaick era capaz, mas o sócio que trouxe a namorada estava
esperando a sua sorte mudar e queria ter mais uma oportunidade, então convenceu
os outros dois a continuar.
- Por que também não se junta a nós, para uma partida Jonas?
– Um dos homens me convidou. – Não se preocupe, só estamos jogando por
diversão.
É, com certeza é muito divertido perder U$ 10.000,00 por
partida.
- Não acho que Jonas tenha interesse em nosso tipo de
diversão, Michels! – Blaick riu do próprio comentário. – Deixem-no em paz. Ele
veio apenas assistir!
Eu sabia o que ele queria dizer, queria dizer que eu não
tinha condições financeiras de participar de sua diversão.
Queria dizer, mas não disse e ainda assim ele riu com seus
amigos. Ninguém além de mim sabia, mas ele ria da minha cara.
Mandou-me apenas assistir.
Lamento desapontá-lo dessa vez, Blaick.
Puxei uma cadeira vazia e me sentei de frente com o Blaick.
Tinha assistido a última partida e ele era de longe o melhor jogador da mesa,
então o lugar mais estratégico para estar sentado era exatamente o que eu
escolhi, encarando-o. Ao seu lado Lola me observava apática, com sua mão
acariciando o ombro de Blaick.
- Na verdade eu tô bem afim de me divertir, senhores! -
Ajeitei-me na cadeira – O que estamos apostando? – Eu quis saber.
Blaick sorria e o sorriso se alargou assim que eu aceitei.
Ele ainda estava rindo de mim, discretamente.
- Blaick está apenas aquecendo, mas quando quiser apostar de
verdade, alguma coisa um pouco mais interessante, estamos aqui! – Os olhos do
sujeito que disse isso estavam descaradamente sobre Lola e eu vi o sorriso dela
se desfazer pela primeira vez na noite.
Um olhar gélido de Lola sobre o homem que a cobiçava.
Blaick tentou não demonstrar, mas ele também não estava
nenhum pouco a vontade com a insinuação nenhum pouco sutil do amigo.
- Estamos apostando valores simbólicos, senhores. Nada
realmente arriscado ou valioso, é apenas por diversão! – Blaick falou tentando
atingir a mim e alertar ao outro. – Iniciaremos com U$ 20.000,00 por cabeça?
Todos concordam?
Era muita grana. Quer dizer, pra mim era muita grana, pra
eles era apenas “um valor simbólico”, mas chame como quiser, os cifrões dessa
quantia equivaliam a praticamente três meses do meu salário.
É claro que eu tinha o dinheiro, mas se apostasse e
perdesse, ficaria completamente na merda.
Todos concordaram com o valor sugerido por Blaick e eu
respirei fundo antes de assentir concordando também.
Começamos e eu tinha um Ás de espadas e um Rei de espadas.
Dentre as cartas da mesa um valete de espadas e um dez do mesmo naipe. Analisei
os meus adversários e ninguém parecia exatamente animado, mas eu estava.
(...)
Era a última rodada e eu tinha esperado por aquela dama de
espadas tanto quanto um cara espera pela garota da primeira vez e eis que ela
me aparece ali, bem no momento fatídico, linda e reluzente, praticamente uma
virgem. Eu iria ter a melhor mão da mesa, sem dúvida. Mas aí o Blaick cobriu a
aposta de todo mundo na mesa e eu achei que isso não poderia ser possível.
Qual a possibilidade da mão que ele tinha?
Seu rosto era indecifrável, não demonstrava nenhuma emoção
no jogo e isso dificultava bastante para que um adversário pudesse decifrá-lo.
Foi aí que eu prestei atenção, era um blefe. Ele queria me
fazer pensar que ele tinha uma mão que não tinha. As outras cartas da mesa eram
de um Ás de copas e outro Ás de ouro. Eu tinha um dos Azes do baralho na minha
mão, então mesmo que ele tivesse o quarto, a probabilidade dele ter a outra
possível combinação da mesa completa era zero.
Foi a minha vez de sorrir.
Cobri a aposta e o sorriso de
Blaick se desfez. Eu tinha reunido um Royal Flush e ele soube disso antes mesmo
que eu mostrasse. Blaick tinha uma sequência, mas não era o suficiente pra
combater contra a minha jogada e eu acabei ganhando tudo.
A mesa toda, os U$ 100.000,00.
Puxei as fichas em minha direção e o Blaick me parou.
- O dobro ou nada! – Ele desafiou – Só nós dois dessa vez.
O dobro.
O dobro de U$ 100.000,00 é U$ 200.000,00 e eu
definitivamente não tinha esse valor. E se eu perdesse? Como pagaria ao Blaick?
Os apostadores estavam interessados demais na minha
resposta. Aparentemente era tão sério que o pedido de Blaick capturou até mesmo
a atenção de Lola e da outra mulher.
Eu não devia aceitar essa aposta, era arriscada demais!
Lola se agachou a altura do ouvido de Blaick e cochichou dizendo
que estava ficando cansada e pediu que ele a acompanhasse para o seu quarto.
Acredite em mim, qualquer homem ficaria louco com aquele
convite. Só que não era qualquer homem, era o Blaick e tudo que ele respondeu
foi: “Depois”.
Lola voltou ao seu lugar e eu a vi engolir seco, em pleno
sinal de insatisfação. Pelo visto não estava acostumada ser rejeitada. Encarei
seus olhos apáticos sobre mim. Eram azuis e frios de um jeito que eu nunca
tinha visto igual.
Absurdamente azuis.
Talvez se pudessem me falar teriam dito que era um erro
olha-los tão diretamente, pois eram hipnóticos.
E sem nenhuma razão aparente, eu decidi apostar tudo.
- O dobro ou nada! – Concordei e juro que não tinha ideia se
sabia o que estava fazendo.
Dessa vez a mesa iniciou com uma variação estranha de
naipes. Nenhuma sombra de mão decente parecia possível de ser reunida, mas
estávamos apenas na primeira rodada.
(...)
Chegamos a rodada final e eu não fazia ideia do que poderia
estar na mão de Blaick. Com menos jogadores as probabilidades quanto as cartas
dos adversários ficavam bem mais difíceis de serem calculadas com precisão.
Tudo que eu tinha era a possibilidade de um full-house. Não
era ruim, mas também não era seguro. O melhor jeito de tentar sustentar o jogo
era se eu blefasse e conseguisse fazer com que Blaick achasse que eu tinha uma
mão que eu não tinha.
Mas o Blaick conhecia essa tática, então eu precisaria
encenar. Precisaria ser exagerado e convincente. Minha vez, tirei uma carta
absolutamente inútil, mas deixei que um sorrisinho sínico surgisse em meus
lábios.
Pra tornar tudo mais verídico eu ia cobrir a aposta dele. Só
que se Blaick pagasse pra ver eu estaria perdido.
Cobri a aposta dele como se não tivesse nada a temer e ainda
fui além, coloquei todas as minhas fichas nisso, todas elas de uma única vez.
Pela primeira vez na vida Blaick recuou e eu vi a mão de Lola apertar seu ombro
em ansiedade.
Mas ela estava olhando pra mim.
Diretamente.
Como se inconscientemente quisesse me dizer pra parar. Não
só pra parar o jogo, mas para parar de tentar desafiar o Blaick, pois nós todos
sabíamos quem ganharia no fim.
Ele era o tipo de homem que ganhava em tudo, não é?
Homens como o Blaick não conheciam o gosto da derrota por
que ela simplesmente não existia em seu vocabulário.
Mas a sorte era uma dama bastante leviana, que nunca se
deixava cativar para sempre.
O homem sorriu vitorioso e mostrou sua mão. Ele também tinha
um full-house, porém os valores de sua trinca e seu par eram inferiores aos
meus
Parece que estava cantando vitória antes da hora, ele iria
arrastar pra si as fichas da mesa mas eu o impedi. Mostrei a minha mão e o
homem empalideceu.
Três reis e duas damas meus contra o que seria três damas e
dois valetes dele, ambos full-houses, mas de valores diferentes.
Então eu ganhei.
Havia acabado de ganhar U$200.000,00 dólares.
Eu não sabia o que pensar, mas confesso que a primeira coisa
que busquei foi a expressão de derrota na cara do Blaick. Achei que eu iria
querer ficar olhando a noite toda, só curtindo o momento, mas essa nem foi a
melhor parte.
Estranhamente a melhor parte foi notar o suspiro de alívio e
o sorrisinho discreto dançando nos lábios de Lola.
Ela queria que eu ganhasse?!
Olhei em seus olhos e apatia e frivolidade voltaram em um
instante. Torceu o nariz com o mesmo desprezo que ela sempre me apresentava.
Fui parabenizado por todos os presentes, inclusive recebi um
olhar bastante interessado da tal Olivia, que era muito gostosinha, preciso
comentar. Meu chefe também veio apertar a minha mão demonstrando como ele era
um bom competidor. Ao seu lado, sua acompanhante recusava-se a se quer me
olhar, se empenhava para continuar não me parecendo nenhum pouco simpática.
– Meus parabéns, Jonas. – O seu sorriso tentava mascarar a
sua real falta de crença no que havia acabado de acontecer – Você joga bem.
- Obrigada, senhor. – Sorri pra ele do mesmo jeito que ele
pra mim - Foi um prazer, cavalheiros. Eu me diverti muito essa noite! – “As
suas custas” deveria acrescentar.
Lancei um último olhar sobre Lola antes de me retirar do
cassino. Quis que ela me olhasse diretamente, como no jogo. Com aqueles olhos
azuis dentro dos meus, mas ela deixou bem claro que apenas acompanhava meu
chefe e que se estava tendo disposição de se colocar em minha insignificante
presença, era por que Richard Blaick também estava ali, a minha frente.
(...)
A sensação da vitória era indescritível. Blaick deveria
estar com ainda mais ódio de mim do que de costume, mas honestamente eu estava
pouco me lixando pra isso.
U$ 200.000,00 dólares
A cara de derrotado do Blaick.
Pra mim ambos os prêmios equiparavam-se em valores.
É, essa definitivamente era uma reviravolta inesperada. Eu
quase me sentia feliz, e se não fosse por ter reencontrado Dani depois de tanto
tempo eu estaria em êxtase.
Mas a verdade é que eu não estava feliz, nenhum pouco.
Aquele dinheiro todo, a derrota pública de Blaick e nenhuma felicidade era o
que eu tinha.
Tentei beijá-la e ela recuou, mas quando ele a beijou ela
queria.
Eu queria gritar até aquela dor sair do meu peito.
Flash Back On
- Nick, você precisa mesmo ir embora? – Dani me perguntou
mais uma vez, enquanto esperava que eu terminasse de fazer o meu check-in para
pegar o meu avião.
Já havíamos conversado sobre isso antes, dezenas de vezes, mas
parecia que apenas eu havia entendido a importância do que eu estava fazendo e
eu não estava fazendo só por mim, mas por ela também, por nosso futuro juntos.
- Amor, eu já te disse um monte de vezes: Eu tenho que ir! Essa
bolsa, dessa faculdade, pra esse curso. – Expliquei novamente. – É uma oportunidade única!
Por causa do meu excelente desempenho acadêmico eu tinha
sido considerado para uma bolsa na universidade Princeton para o curso de
Economia. Era exatamente o que eu queria desde sempre e Dani sabia o quanto isso
significava pra mim.
- Além do mais, daqui a pouco vai ser a sua vez. – Lembrei -
Você tem aquela audição pro balé de New York. Tenho certeza que daqui a
pouquinho, você é quem vai estar dando adeus ao Texas.
As lágrimas em seus olhos quando o horário do meu voo se
aproximava. Ela tentou disfarçar, mas já estavam correndo sem que ela pudesse
fazer com que parasse.
- Desculpa, eu não queria chorar de novo. Ensaiei a tarde
inteira pra me despedir de você com um sorriso e... Agora não consigo! – Sua
voz chorosa saiu falha, cortada por pequenos soluços.
Eu havia me apaixonado por Dani rápido demais, intenso
demais. Éramos jovens demais também, mas eu sabia que ela era a mulher da minha
vida, com quem eu iria construir uma família, ter os meus filhos.
E se tinha algo que eu detestava nesse mundo era vê-la
chorar.
Abracei-a e foi a coisa mais difícil que já tive que fazer
depois: Solta-la.
Tive dúvidas sobre ir. Queria ficar. Queria leva-la de volta
pra casa e pedir que esquecesse toda essa bobagem sobre a minha bolsa de
estudos e o balé de NY.
Daríamos um jeito. Arrumaríamos qualquer coisa e ficaríamos
juntos.
Era esse o plano, não era? Ficarmos juntos.
Em segundos eu imaginei o nosso previsível destino: Eu como
auxiliar ou assistente administrativo em uma loja qualquer da cidade e Dani se
dividindo entre um emprego de meio período como garçonete e as aulas de dança.
Talvez a gente fizesse a faculdade comunitária a noite. Nenhum curso em
especial, já que não teríamos a disposição aqueles com os quais sonhávamos.
Seria um começo difícil, mas não havia nada de errado nisso.
Todo mundo começa em algum lugar.
Podia dar certo, não podia? Nós nos amávamos o bastante pra
fazer isso dar certo, não é?
Tão rápido quanto veio, as imagens fictícias se desfizeram
em minha mente.
Não daria certo, definitivamente.
Seria o mesmo que nos condenar a uma vida medíocre e eu não
poderia fazer isso com ela, nem comigo.
Nós tínhamos tantas expectativas: Eu tinha essa bolsa e a
Dani teria uma audição para o balé de New York. Seguiríamos caminhos separados
dali pra frente, mas não queria dizer que nós iriamos esquecer tudo que
significávamos um pro outro e os nossos planos de um futuro juntos.
Eu queria ter aproveitado mais aquele abraço de despedida.
Eu ainda não sabia, mas não a abraçaria assim de novo.
A voz robótica na caixa de som do aeroporto anunciou a chamada
para os passageiros do meu voo e eu não lembro de nenhuma outra despedida que
tivesse doído tanto até então. Dani estava agarrada ao meu pescoço. Na época
ela era ainda mais baixinha e teve que ficar na ponta dos pés pra conseguir
essa proeza. Tirei seus braços do meu redor com um pesar que eu jamais vou
conseguir colocar em palavras e ela se afastou dois passos pra trás limpando as
lágrimas.
A gente havia decidido dar um tempo no nosso namoro enquanto
estivéssemos estudando fora, pra nos focarmos ainda mais. Então, tecnicamente,
ela não era mais a minha namorada e ainda assim eu a beijei.
Foi o melhor beijo da minha vida.
E eu nunca mais pude repeti-lo.
Flash Back Off
Meio desnecessário contar o que aconteceu depois, a história
fica meio óbvia: Dani entrou para o balé de New York e conheceu o atual marido,
Peter Harris, em alguma de suas apresentações. Os dois namoraram, depois
ficaram noivos e então se casaram, tudo isso em menos de dois anos e ela se
esqueceu de mim ainda mais rapidamente.
Lembro-me de ter recebido a notícia de seu casamento através
de uma carta da própria Dani, bem na época em que tinha começado na turma
avançada de econometria. Foi a melhor época pra receber esse tipo de notícia,
pois a matéria era difícil como o inferno e eu precisei estudar tanto que não
tive tempo pra me importar com mais nada.
A notícia do casamento da garota que eu amava, não significou
nada, absolutamente nada. Nada além de um papel amassado no fundo de uma das
minhas gavetas.
Eu estava tão anestesiado pela dor, que não podia sentir.
Queria apenas estudar como um desgraçado e passar na matéria então foi só o que
fiz.
Meus amigos se preocuparam comigo e eu queria manda-los a
merda sempre que tentavam me animar ou me tirar do meu transe/coma acadêmico.
De madrugada, quando eu finalmente dava uma pausa nos livros
pra ir dormir, imaginava Dani de branco, caminhando para o altar. Imaginei isso
diversas vezes. Não era pra mim que ela vinha, era pra outro cara. Um que eu
sequer tinha me dado ao trabalho de saber como era a cara.
Mas ainda assim eu sabia coisas demais sobre ele. Um ricaço
nova-iorquino herdeiro de um império familiar. Tinha mais dinheiro do que eu
jamais poderia sequer sonhar conseguir ter na vida. Também era uma pessoa
popular, importante na alta sociedade. Tanto que os dois viviam estampados em
revistas, não que eu tivesse tempo pra ler esse tipo de coisa.
Depois de muito tempo, seis turmas avançadas pra ser mais
exato, eu finalmente desisti dela e resolvi esquecer, ou pelo menos não pensar mais
no assunto. Ela havia feito sua escolha e não interessava o motivo, pois no fim
das contas ela havia escolhido se casar com outro cara.
Tentei não julga-la, não ressenti-la. Achei que tinha sido bem-sucedido,
mas deu pra perceber que não.
Aí vem a merda do
destino e nos coloca juntos no único lugar do mundo onde seria mais improvável
nos reencontrarmos novamente.
Aqui.
Em Las Vegas!
Dá pra acreditar? Eu reencontro a porra da mulher da minha
vida que casou com outro na porra de Las Vegas!
E isso nem é a pior parte.
A pior parte foi ser obrigado a vê-la sorrir ao ser beijada
por aquele babaca.
E o jeito como ela olhava pra ele? Eu conheço esse jeito de
olhar, conheço bem, porque era o jeito que ela olhava pra mim!
Foi aí que soube que a tinha perdido.
(...)
Eu desci para beber no bar do hotel porque já havia bebido
tudo que continha alguma composição alcoólica dentro do meu quarto.
O som de Jezz clássico tomava conta do ambiente. Haviam
poucas pessoas no recinto e eu talvez nem tivesse notado nenhuma, se não fosse
por ela.
Sentada sozinha em um dos balcões do bar, remexendo sua taça
pra lá e pra cá com descaso.
Ela acompanhava o movimento do líquido contido na taça com
os olhos, preguiçosamente.
Não vou mentir: Eu a olhei de cima a baixo e a medi
repetidas vezes.
Suas pernas longas e torneadas cruzadas de um jeito que era
erótico sem qualquer intenção. Ou talvez tivesse alguma intenção, eu não
saberia dizer. O vestido curto demais pra deixar algo pra imaginação, era o
mesmo que ela usou durante a noite inteira e que com certeza levou muitos dos
amigos de Blaick a fantasiarem tirá-lo.
Eu mesmo poderia fantasiar sem nenhuma dificuldade aquele
vestido jogado no chão do meu quarto e a dona dele nua na minha cama.
Sentei-me ao seu lado e ela se quer me notou, parecia
distraída demais com seus próprios pensamentos.
- Uma moeda pelos seus pensamentos. – Brinquei antes de pedir
ao barman uma bebida pra mim e ela finalmente olhou em minha direção.
- Nick? – Ela parecia surpresa. Não tanto quanto eu quanto eu fiquei ao ouvi-la dizer o meu
nome. Sempre achei que ela se quer tivesse gravado o meu rosto, quanto mais o
nome.
- Posso te fazer companhia? – Perguntei para saber se ela
voltaria a sua natural apatia, que sempre me era direcionada.
- É um lugar público, você pode ficar onde quiser! – Ela
falou com desdém e eu quis morder aquela boquinha e o narizinho empinado dela
também. Morderia qualquer milímetro daquele corpo perfeito que ela deixasse.
Eu não sabia muito sobre Lola Thompson ou sua relação com Blaick,
mas tudo me parecia bastante óbvio. Ele era um homem mais velho, casado e rico.
Ela era uma moça jovem, solteira e muito atraente. Havia duas opções: a número
1, ela é a amante. Se for isso, ela quer algo mais que dinheiro e eu não tenho
a menor chance. A número 2, ela é uma puta. Não uma puta comum dessas que você
paga por hora e pega numa esquina qualquer, deveria ser uma dessas putas caras
de luxo que só homens tão ricos quanto o meu chefe podem se dar ao privilégio
de pagar. Se for isso, pra ela tanto faz quem é o cliente contanto que pague
bem no fim e aí eu teria uma chance.
Quanto poderia custar uma noite?
Tentei avaliar as interações que já tinha visto dela com
outros homens, para tentar descobrir qual das duas opções Lola era. Lembrei-me
que sempre que a vi ela estava com Blaick e que isso talvez a tivesse inibido.
Eu poderia arriscar tentando descobrir, mas poderia ser
desastroso. Se ela fosse a amante e dissesse ao Blaick que fui desrespeitoso,
ele não pensaria duas vezes em me colocar no olho da rua.
Mais uma olhada naquele corpo que era um caminho pra
perdição. Seu rosto, sua boca e seus olhos azuis.
Eu deveria ser racional, mas eu vou colocar a culpa no
álcool, pois ele deve estar tornando os meus pensamentos turvos e deixando
difícil pensar direito.
Eu estava com um desejo doido de experimentá-la desde que a
vi nua em cima da mesa do escritório do chefe. E a nossa viagem de jatinho pra
cá, não tinha melhorado muito a minha situação.
Talvez fosse só porque ela é gostosa pra caralho.
Ou talvez fosse só mais uma das minhas tentativas de superar
Blaick.
Talvez eu só quisesse tirar a Danielle um pouco da minha
cabeça...
Eu não sabia o real motivo, mas de repente, eu estava louco
de tensão por aquela mulher.
Aproximei-me dela, só o suficiente pra que ela também me
olhasse. E quando ela direcionou sua atenção a mim, estava ali toda a apatia
que ela sempre me demonstrava.
E eu descobri que adorava o seu desprezo, deixava tudo muito
mais interessante.
- Quanto custa? – Perguntei sem rodeios.
A testa de Lola se enrugou com a “estranheza” da pergunta.
Dava até pra pensar que ela não sabia mesmo do que eu estava falando.
- Quanto custa o quê? – Ela quis saber. Eu teria rido, se
não tivesse sido uma pergunta séria da parte dela.
- Como o quê? Você. – Expliquei – Quanto custa uma noite com
você, Lola?
Continua...