Narrado por Demi
Chequei pela décima vez a minha maquiagem no pequeno
espelho de mão, enquanto esperava na entrada do meu prédio o táxi chegar. Está tudo certo com a maquiagem, como eu
havia visto há dois minutos atrás. Pode parecer bobo, mas estava absurdamente
ansiosa pra essa festa. Faz bastante
tempo que eu não vou a encontros com algum cara. E um cara como o Glen? Bom,
sempre há uma primeira vez para tudo.
Glen é um gato. E fala sério, ele é tudo que uma mulher deseja
e mais um pouco. Lindo, simpático, rico, sexy, bom de papo... E com esse naipe
todo ele deve ter saído com as mulheres mais interessantes dos Estados Unidos.
Mas como o Nick disse, se ele aceitou sair comigo é porque ele me achou
interessante também. Então, relaxa Demetria... Só relaxa.
O problema é: Acho que a ficha está caindo agora. Logo
agora! Não poderia ser amanhã? Depois de ter curtido a festa, bancar a mulher
poderosa e sensual e me divertir com ele?
Suspirei quando eu vi o taxi finalmente chegar. Ah, como
eu queria que a Miley estivesse aqui para me dar uma ajudinha... Uma dica, um mantra de mulher fatal, qualquer
coisa!
Entrei no taxi e repassei o endereço para o
motorista. Quer saber? Vou dar uma
ligadinha pra ela. Não custa nada!
-Alô? – ouvi a voz da Miley um pouco mais baixa que o
normal. –Demi, tá tudo bem?
-Não, não está! Eu to indo para uma festa de gente rica
com o Glen. – eu disse e ouvi ela conter o volume da sua risada.
-E por que isso seria ruim, amiga?
-Acho que trabalhei tanto que esqueci o que se faz em um
encontro! Miley, ele é de um universo totalmente diferente do meu. O que eu
faço?
-Dê, você é uma pessoa incrível, só seja...
-Ah não, não venha com o clichê de “seja você
mesma”. Quero soluções concretas!
-Demetria, presta atenção no que eu vou dizer e espero
que você entenda rápido porque estou falando no telefone escondida no quarto. –
ela mudou o tom de voz e entendi que ela já estava ficando impaciente. –Tem um
cara mega gostoso a sua disposição, uma festa maravilhosa que te aguarda porque
um cara que nem o Glen só vai nas melhores, pode apostar. Você quer mais o que? Você está indo nesse
encontro para aproveitar e não pra impressionar. Eu preciso impressionar porque
é meu trabalho, mas você não. É para você se divertir! E que se dane o que vão
pensar ou não de você. Você vai ter a noite que você sempre quis. Agora vai lá
e aproveita!
Ela tem razão. É uma oportunidade de eu me divertir e
tirar uma casquinha daquele homem de arrancar o fôlego. Essa é a minha noite.
Só minha!
-Garota, eu te amo! E desculpa por ter te atrapalhado,
Miles.
-De nada. – ela respondeu mais relaxada. – Depois me
conta tudinho, hein. Agora eu tenho que ir. Beijos.
-Te conto tudo amanhã. Beijos.
Depois de alguns minutos de viagem, o taxi finalmente
parou em frente ao destino. O edifício ficava
a poucas quadras da Times Square, uma região de prédios extremamente
luxuosos. O prédio era de uma
arquitetura imponente e bem moderna, só pela entrada eu já pude imaginar o
nível das pessoas que moram nesse lugar. Depois de me identificar com o
porteiro, subi até a cobertura. Pelo que
entendi, o apartamento era na cobertura. Assim que cheguei ao ultimo andar, a
porta do apartamento já estava aberta e o avistei me esperando logo na entrada.
Tocava uma música bem animada por ali.
-Demi! –ele me chamou.
O cara estava um pedaço de mal caminho. Ele sabia disso. Assim
que ele me avistou, abriu aquele sorrisinho sedutor e por um momento tive que
me concentrar em respirar direito, até me recompor. Eu sorri de volta e fui
abrindo o sobretudo quando notei que ali dentro estava aquecido o
suficiente. Percebi o seu olhar varrer
sobre mim e demorando um pouco mais sobre o meu decote. Tentei disfarçar um
sorriso de vergonha, mordendo o meu lábio inferior. Ele não tem pudor nenhum em
demonstrar os seus pensamentos e eu já podia perceber isso só pelo olhar. Glen
suspirou discretamente e caminhou em minha direção para me ajudar com o
sobretudo.
-Você veio definitivamente para matar alguns caras do
coração hoje, inclusive eu. Você está incrível. –ele sussurrou atrás mim,
enquanto me ajudava a tirar a peça. Pude perceber a minha nuca se arrepiar ao
sentir seu hálito bater em minha pele. Ok, corpo, eu sei que não saio com
alguém há muito tempo, mas me ajuda a não passar vergonha.
Olhei para trás para encontrar seus olhos verdes me
fitando intensamente. –Obrigada, Glen.
Você também está lindo. – A troca de olhares por alguns segundos foi quebrada
quando ouvi uma voz feminina se direcionar a mim.
-Então você é a convidada do Glen? – uma moça de cabelos
curtos e ruivos sorriu simpaticamente para mim enquanto Glen entregava o meu
sobretudo para alguém que estava guardando as coisas no closet da entrada. –Eu sou Taya.
Me apresentei à anfitriã da festa. Ela parecia ser bem
legal, me mostrou brevemente onde tem as bebidas, as comidas muito bem
servidas, me explicou que tinha a área aberta se eu preferisse ficar por lá. A
decoração daquele lugar é impecável, cheios de quadros abstratos coloridos e
esculturas modernas. Todo o ambiente parecia ter a cara da Taya, divertido e
cheio de atitude. Só durante a recepção da anfitriã, já tinha reconhecido uns
dois ou três rostos bem familiares, que presumo ser de alguns famosos. Pelo que
parece ela trabalha no ramo artístico e deve conhecer muita gente influente da
mídia. Um pouco depois ela nos deixou a
sós e fiquei a vontade com o Glen novamente.
-Que bom que você veio, Demi. – ele alisou a ponta de
seus dedos pelo meu braço, até alcançar a minha mão. Ele deve ter percebido a minha
respiração mais pesada e sorriu de lado, sem abrir os lábios. –Eu pensei que
não vinha mais.
Peguei a sua mão, na tentativa de deixa-la sobre o meu
controle antes que as minhas expressões gritassem “eu estou muito a fim de te
pegar agora”.
-É, eu acabei me atrasando um pouco... Espero não ter
perdido muita coisa.
-Imagina, a noite só está começando. – ele me puxou pela
mão que o segurava. – Vem. Quer beber alguma coisa, comer alguma coisa?
-Definitivamente, eu estou louca para comer aquele sushi.
– eu me animei quando vi a mesa tomada por comida japonesa. E ele riu com a
minha animação.
-Então somos dois. – ele comentou, indo em direção à mesa
junto comigo. Pegamos os pratos para nos servir. – Finalmente uma gata com
apetite. Você não pode imaginar o quanto de gente que vem para uma festa como
essa para passar fome.
-Se tem uma coisa que eu não escondo é a minha vontade de
comer.
-Já gostei de você. –ele comentou com um sorriso
divertido no rosto.
Passamos um bom tempo conversando por ali. Contei um
pouco do que eu faço da minha vida, com o cuidado para não citar a Miley.
Prefiro esconder algumas coisas a mais do que sair falando o que eu não devo.
Imagina só se ele liga os pontos? Tudo bem que ele é amigo do Nick, só de o
Nick saber do segredo da vida dupla da minha amiga já está de bom tamanho.
Ficamos parados por ali por um bom tempo, conversando e
rindo. Algumas vezes, alguns toques discretos e carinhosos ele se atrevia em
meio a troca de olhares mais intensos e obviamente, eu já estava
correspondendo. Nos beijamos poucas vezes ali, mas foi o suficiente para eu
provar aqueles lábios macios dele e querer mais.
- Olha, eu quero muito dançar com você, mas acho que tem
uma coisa mais divertida para fazermos aqui. Topa? – ele se aproximou de mim sem quebrar o
contato visual. Oh... Ok, ele já está cheio de atitude.
-Topo! – olhando desse jeito para mim, bebê. –O que vamos
fazer?
- Me espera um pouco aí. – ele sorriu e de repente se
afastou para algum canto da casa. Pouco tempo depois ele já estava de volta e
me mostrou uma chave em uma de suas mãos. –Vamos, linda. – me puxou pela mão
novamente, mas dessa vez em direção ao extenso corredor do enorme apartamento.
Com a chave, abriu uma das portas que estava trancada e
entrou no cômodo comigo. Ele já está bem apressadinho, né? Apesar de estar com
vontade de questionar essa rapidez, fui movida pela curiosidade em observar o
que ele estava fazendo com isso tudo. Ele caminhou até a sacada e o segui. Do lado de fora, tinha a visão da maior parte
da Madison Square Garden, de uma altura grande o suficiente para termos uma
vista bem privilegiada das luzes de Nova York.
-Uau! Que lugar incrível! – eu disse me aproximando da barra
da sacada. –Olha essa visão!
-É, eu sei. Sabia
que você ia gostar. – ele disse ao meu lado, ainda com uma das mãos em minha
cintura. – A sacada principal, lá de fora, é muito bonita também. Mas essa
visão daqui ainda consegue ser melhor.
Ainda mais com uma mulher como você aqui. – a sua voz saía de sua boca
como um veludo, macia... e bem sexy.
-É, Glen... Devo confessar que você é muito bom nisso. –
eu disse me voltando para ele. Suas sobrancelhas arquearam.
-Bom, em que?
-Em ser um sedutor. Você leva a sério isso, de querer
impressionar as mulheres. – eu soltei. Ele riu de surpresa com a minha
afirmação. – Ou você acha, que eu realmente estava pensando que você é um moço
distinto e romântico? – dessa vez foi a minha vez de avançar, diminuindo a distância
entre nós. Até que enfim, a maldita timidez foi embora, pelo menos por alguns
minutos.
-Por algum momento achei. – ele abaixou o tom de voz,
conforme a distancia entre nossos rostos diminuíram. – Mas acho que quem me
enganou foi você, com toda essa pose de menina tímida e fofa. – Ele abaixou o
seu olhar para a minha boca e tirou o meu cabelo da frente do meu ombro, o
jogando pra trás. –Não que você não seja adorável, porque você é. Mas sabemos
bem que existe um lado mais atrevido em você que estava prestes a sair.
Eu encarei seus lábios por mais pouquíssimos segundos,
antes de juntar de vez a minha boca com a dele. Mesmo de salto, eu me esforçava
para manter a altura da sua boca. Glen me facilitou, quando me puxou ainda mais
pela cintura com mais ousadia, me deixando na ponta dos pés. Sua língua
ardilosa acariciando a minha com fervor, sem nenhum pouco de pressa, mas com
uma sensualidade impossível de resistir.
Nosso beijo já imprimia muito bem a tensão que estava rolando entre nós
e eu só não queria parar.
Senti Glen descer com a sua mão ousada até a minha bunda
e a apertou. Mordi o seu lábio inferior e o suguei entre os meus, voltando ao
beijo quente que estava rolando entre nós.
De repente, ouvimos um barulho vindo do quarto. Taya
tinha entrado e nos viu na sacada. Acho que Glen se esqueceu de trancar de
volta.
-Ops, oi Taya. – eu falei sem graça.
-Glen, você pegou a minha chave? – ela cerrou os olhos
para ele. O danadinho abriu um sorriso safado, como se estivesse fazendo algo
que não devia, mas que tinha gostado e eu não pude conter senão morder aquele
sorrisinho lindo. Ele retribuiu com beijinho curtos, até se tocar que a amiga
dele ainda estava ali.
-Bem, eu... Só vi mostrar a vista daqui para Demi, não é?
– ele perguntou pra mim e afirmei com “é” e balancei a cabeça. – Mas já estamos
de saída, relaxa. – ele piscou e me caminhou comigo em direção a porta,
segurando a minha mão.
Poucos minutos depois, já estávamos na garagem do prédio
e Glen finalmente encontrou o seu carro em uma das vagas que sua amiga
emprestou para estacionar. Quando me
toquei, havia deixado o meu sobretudo cair no chão, quando aquele loiro
maravilhoso me prensou entre o seu corpo escultural e o seu carro importado, me
roubando mais um beijo que arrancar o fôlego.
Assim como trocamos amassos quentes no elevador e eu brinquei em apertar
o botão de emergência para me divertir um pouco lá dentro com ele, mas não
podíamos ficar por lá durante muito tempo. O plano é irmos para casa dele e não
ter hora para ir embora.
Glen direcionou a sua boca para o meu decote, enchendo a
parte valorizada e exposta dos meus seios com beijos e lambidas. E eu sorri por
um momento quando lembrei do Nick dizer “ele vai ficar doidinho para enfiar a
cara bem aí”. É... Nick conhece o seu amigo muito bem.
-Demi. - ele disse entre beijos em meu pescoço. – O que
você acha de...
-Irmos para o banco de trás antes de ir embora? – eu sorri
ofegante e ele respondeu com um “uhum” ainda beijando a minha pele. –Por favor, vamos!
Entramos no carro e em poucos minutos as nossas roupas já
foram tiradas com uma pressa de dois desesperados pelo outro.
(...)
Quando chegamos à mansão que o Glen morava, ele me
abraçou por trás enquanto eu adentrava a casa, admirando em casa detalhe. Ok...
Entendi muito bem, o cara é cheio da grana mesmo!
-Sua casa é linda! – eu comentei.
-Obrigado, Demi. Fique a vontade. – ele apertou de uma
forma charmosa o meu queixo. -“Mi casa es su casa”. Agora que eu não vou mais
dirigir, eu posso acompanhar um vinho com você. Aceita uma taça, minha linda?
-Claro. – eu sorri para ele antes do deus nórdico da
bunda magnífica ir buscar um vinho na sua adega.
Tirei os sapatos de salto, ficando mais a vontade. Enquanto
ele preparava as taças, eu fui caminhando pela sua sala de estar, observando as
suas fotos espalhadas pelo ambiente. Fotos em viagem aventureiras para varias
partes do mundo, algumas fotos com a família... Até o Glen pequeno conseguia
ser uma criança encantadora de tão linda. Fui pega de surpresa quando o ele já próximo
de mim, chamou a minha atenção me estendendo a taça de vinho tinto.
-Gostando das fotos? – ele perguntou e eu assenti com um
balanço de cabeça.
-Me conta mais sobre você, Glen. Conversei muito sobre a
minha vida na festa com você. Quero conhecer suas histórias. – eu me sentei no
sofá, mais a vontade.
-Ok, por onde eu começo? – ele se sentou em frente a mim
com um sorriso frouxo no rosto e sorri de volta. Puta merda, como ele é
encantador.
Então conversamos sobre a sua vida, sobre a suas aventuras
ao redor do mundo, as histórias engraçadíssimas que ele tinha com o Nick no tempo
da faculdade em Princeton... Eu estava
gostando de conhecê-lo melhor. A noite desde o começo foi incrível, mas esse
momento eu estava amando porque estávamos muito mais sinceros e transparentes.
Estávamos à vontade um com o outro. E não queria admitir, mas estava amando
ouvir cada palavra daquele cara.
-Então Nick conseguiu um emprego na Blaick inc. e eu
comecei a trabalhar na empresa da minha família, como era esperado, sabe?
Repassado de geração em geração... Bom, Nick acabou ficando com o trabalho mais
árduo, mas acredito que ele vai longe também.
-É... eu tenho ouvido dizer que aquele chefe dele não é fácil.
– comentei despretensiosa.
-Blaick é um grande babaca. – ele rolou os olhos. Pelo
tom de voz, deu para perceber que ambos não têm uma relação muito amigável. –Tudo
bem que o cara é inteligente em fazer tudo o que ele fez, mas ele é um homem
arrogante e sem escrúpulos.
-O que ele faz? – eu perguntei.
-Ele puxa o tapete de quem for preciso para conseguir o
que quer. Trata os seus funcionários com arrogância e indiferença. E bom, o
Nick é um caso a parte, né? Richard sabe o potencial do Nick e no fundo ele
detesta ter um grande concorrente em potencial ameaçando ofuscá-lo. Por isso
ele é tão imbecil com o Nick. –Glen pareceu
se lembrar de mais uma coisa. – Ah... Além do cara simplesmente esquecer a
família dele em Londres para pular cerca com prostitutas de luxo aqui em Nova
York. Prostitutas não, prostituta. – Eita,
ele está falando da Miley! – Lola. – ele pronunciou lentamente o nome dela e
por algum motivo aquilo me incomodou um pouco. – Ela é estonteante. Parece
fina, sabe? Culta... – ele foi rasgando elogios pela Lola e de repente aquela
ideia de passar o resto da noite com ele não me pareceu mais tão boa assim. – O
cara ficou tão obcecado por ela, que ele quis contratá-la para ser totalmente
exclusiva dele. – Glen comentou ainda de tom de revolta contra Blaick.
Isso está me cheirando a ciúmes. E isso me deixou tão
incomodada que até mais um gole daquele vinho me deixaria enjoada. Foi
inconsciente, mas quando eu dei por mim, eu me toquei que a Lola já veio nesse
lugar e ele fez tudo o que ele quis com ela aqui. Então eu me lembrei dos
relatos da Miley do quanto que ele parecia estar caidinho pela Lola, a
procurando de vez em quando e até a disputando com o Nick. E aqui estava eu,
tinha acabado de me pegar com ele no carro e ele ainda estava com raiva do
Blaick ter roubado a sua diversão.
-Demi... – ouvi sua voz distante, enquanto a minha mente
fervilhava em pensamentos. – Você está séria. Está tudo bem?
Eu suspirei e deixei a taça de vinho na mesinha de
centro. Eu já devia imaginar. Ele é um mulherengo de primeira, assim com o Nick
me avisou. Nós não somos compatíveis. A Lola é. Eu senti raiva dele, mas eu
precisava me conter.
-Quer saber? Eu acho que já está na hora de eu ir para
casa. - eu disse, chamando o taxi pelo aplicativo do meu celular.
-O que? Por quê? – ele perguntou confuso. – Quer dizer,
mas já? Aconteceu alguma coisa de errado?
Eu coloquei os meus sapatos de volta. –Eu só quero ir para casa agora.
-Mas assim tão de repente... e a gente? Fica aqui,
Demi... – ele insistiu e eu ignorei me levantando e indo buscar o meu
sobretudo. –Demi, espera. O que está rolando? – ele veio atrás de mim e tentou
me parar, tentando me segurar pela mão, mas eu puxei. Chega, meu humor foi pelos ares.
-Não insiste, por favor. – peguei a minha bolsa na
entrada da casa e a abri a porta sozinha. – Tchau, boa noite.
Fui uma ideia estupida e impulsiva minha. Parecia
divertido demais sair com um grande clichê dos romances adultos, um homem
gostoso, rico, divertido, sensual e bom de cama, me chamando de linda e me fazendo
sentir desejada a noite toda. Mas na real ele é o Glen, o mesmo Glen que estava
nessa medição de pau com o Nick pela Lola. Eu não podia e nem queria entrar
nessa competição. Não, eu e Miley não estamos competindo. Mas eu pude ver o
quanto que ele ainda queria a Lola ali e não eu. Eu não posso me prestar a isso.
Eu sei o quanto eu me apego e já estava começando a gostar dele. Eu e ele? Nunca iriamos acontecer.
E repito para mim mesma: eu não posso me prestar a isso.
-Demi... –eu o interrompi.
-Não vai atrás de mim.
Narrado por Nicholas
Ainda eram dez e meia da manhã e o escritório já estava
uma loucura. O louco do Blaick cismou de tirar dez dias de férias em Hamptons e
jogou um mundo de tarefas para os funcionários, com uma dose especial para mim,
o assistente que ele ama fazer de trouxa. Se tem uma coisa que eu odeio é gente
que cobra mais do que faz. A sorte dele
é que eu gosto de trabalhar, porque se não gostasse eu já teria jogado esse
emprego e todas as minhas oportunidades para o alto e faria questão de deixá-lo
na merda. Porque uma coisa que ele sabe muito bem é que uma boa parte dos
avanços dessa empresa se deve a mim. Richard Blaick deve contar muito com a
minha força de vontade de permanecer aqui mesmo, porque a cada dia mais é uma
forma do meu chefe me tirar do sério e me fazer lembrar o porquê eu estava ali.
Ouvi o meu celular tocar em cima da mesa. Parei de
digitar quando eu vi o identificador. Glen.
-Oi, cara. Pode falar. – eu equilibrei o celular entre
meu ombro e minha orelha, enquanto terminava de digitar os ajustes finais de um
dos relatórios da semana. – Como foi ontem a festa com a Demi?
-Foi perfeito, até ela ir embora do nada. – ele respondeu
do outro lado. Ah não, o que o safado do Glen aprontou agora? – A gente estava
se dando super bem. Conversamos bastante, nos pegamos. Parecia que ela estava
gostando de tudo. Cara, a Demi é de enlouquecer. Que mulher incrível! Estava
rolando tanta química entre a gente, que a gente transou no carro mesmo. Mas
chegando lá em casa, ela se chateou do nada e quis ir embora. E ela não retorna
a minha ligação.
-Puta que pariu, Glen! – eu levantei a voz. A essa altura, eu já tinha até de deixado o
relatório de lado e me levantei da cadeira. Eu estava puto. – Você comeu a Demi
e depois foi um idiota com ela na mesma noite!? Qual é o seu problema? Qual
parte do “não seja um imbecil, não magoe a minha amiga” você não entendeu?
-Cara, eu não fui um imbecil com ela. Eu a deixei a
vontade a noite toda, não disse nada demais!
Eu só não entendi mais nada.
-O que você exatamente disse antes dela ir embora? – A
sorte dele que era impossível de socá-lo pelo telefone, porque era isso que eu
queria fazer.
-Não sei, a gente estava conversando sobre tantas
coisas... Eu comecei a falar sobre a minha vida, sobre a nossa amizade, aí eu
falei sobre o Richard e acabei comentando que ele tava pulando cerca com a
Lola. Aí um pouco depois, ela ficou séria e pensativa. Se levantou e quis ir
embora do nada.
É sempre a porra da Lola metida na história. É sempre ela
o centro de todo carma desde que vi essa mulher pela primeira vez.
-O que exatamente você falou da Lola? –eu perguntei e ele
demorou um pouco pra responder.
-Eu não falei que transei com ela e nem nada...
-Você falou mal dela, Powell?
-Não, eu só falei que ela é a preferida da alta sociedade
e que a beleza dela chama a atenção. Só. Você acha que ela ficou chateada
porque eu falei sobre uma prostituta? Eu nem falei que nós ficamos, cara. Mas
eu não tô mais interessado na Lola!
Eu coloquei a minha mão sobre na testa e respirei
lentamente, na tentativa de não explodir no meu escritório. No fundo, no fundo,
eu sabia que isso não ia dar certo. Por que eu fui burro de deixar o Glen sair
com a Demi pra dar nisso? Era óbvio que não ia terminar bem. Demi já deve ter
imaginado que ele transou com a amiga dela, mais de uma vez. Era óbvio que em
algum momento isso ia ficar estranho.
-Fala alguma coisa, porra. – Glen esbravejou do outro
lado do telefone.
-O que você quer que eu fale? – eu falei ainda com o tom
de voz alterado. – Você chateou a Demi, mas deu tempo de você conseguir o que
queria, né? Meus parabéns pela burrice de falar da puta que você estava doido
pra comer há alguns dias atrás! Você acha que ela ia ficar a vontade? Pensa!
-Ah cara, eu não iria imaginar que isso ia deixar ela
chateada. Estávamos nos dando bem, nos conhecendo, ela estava sendo
transparente e eu também. Além do clima entre nós que estava... Uau! – ele
soltou um suspiro do outro lado. – Você tem que conversar com ela.
-Eu não vou convencer a Demi de insistir nada com você. –
eu retruquei. – Não vou mais fazer parte disso.
-Nick, eu to vidrado nessa mulher. Que vá pro espaço a
Lola! Acho que já nos resolvemos sobre ela. Você está apaixonado pela garota do
Blaick. Eu deixei pra lá, ok? Ela é tua e pronto. –quem me dera – Vamos, cara!
Me ajuda aí. O que eu posso fazer? Tipo, chamar pra um encontro num restaurante
caro, alguma coisa assim?
-Glen, Demi não é muito do tipo que você se resolve
comprando coisas. – ouvi alguém bater na porta do escritório e massageei minha
têmpora direita, tentando organizar os meus pensamentos. – Olha só, eu tenho
que ir. Depois a gente conversa sobre isso e torce para eu estar à base de
calmante quando eu te encontrar pessoalmente. - Desliguei o celular antes de
parar para ouvir Glen insistir mais uma vez.
Tudo bem que o Glen não faz ideia que a Demi é a amiga da
Miley, que é a Lola pra ele. Na cabeça dele, as duas não tem relação nenhuma
uma com a outra, além da história que inventei da falsa apresentação como minha
namorada pra ela. Mas será que ele não pode manter aquela língua menos afiada
na boca, em vez de sair falando da prostituta de luxo que foi pra casa dele há
pouco tempo atrás?
A Demi deve ter ficado desconfortável, com certeza. Ela
sabia de muita coisa, mais do que eu até. Deve estar ciente das loucuras que
ele deve ter feito com a amiga dela e talvez ouvir da boca do cara que ela
estava saindo comentários e opiniões sobre Lola deve ter estragado qualquer
clima. E só espero que ela esteja bem. Demi não é a mulher mais desprendida do
mundo, na verdade ela tende a criar algumas expectativas com os caras que ela
sai e isso não é um defeito. É só o jeito dela de ser e encarar as coisas. Mas
com certeza isso não seria compatível com o Glen. Não mesmo.
Ouvi as batidas na porta insistirem mais uma vez.
-Pode entrar! – eu respondi e avistei Grace, uma das
secretárias do Blaick abrir a porta com uma expressão de preocupação muito estranha
para essa hora da manhã.
-Jonas, acho que a coisa não está boa por aqui... – ela
disse um pouco hesitante de chegar ao ponto. Ela fez uma expressão com a mão,
apontando para o lado de fora da sala e andei rapidamente até a porta para
avistar qual é o próximo abacaxi para eu descascar pelo Blaick agora.
E lá estava ela. Senhorita Blaick todo bem vestida com
uma cara de entediada, balançando um das suas pernas cruzadas no sofá de espera
do hall. Ela jogou os seus longos cabelos negros para trás dos ombros e
finalmente me avistou a olhando da porta do escritório. Eu sorri educadamente
para ela e ela sorriu rapidamente de volta, igualmente por educação. Ela estava
claramente impaciente aguardando alguém. Merda, merda, merda!
-Ela veio procurando o senhor Blaick. – Grace sussurrou
para mim. – Disse que quer fazer uma surpresa para o pai e passar alguns dias
aqui nos EUA com ele. – ela olhou para mim preocupada. A secretária, assim como
eu, sabia muito bem onde o nosso chefe estava e com quem ele estava. E isso a
Camila Blaick não pode saber de jeito nenhum. – O que vamos fazer?
-Pede para ela aguardar mais um pouco que eu daqui a
pouco eu vou falar com ela. Oferece um café expresso pra ela, sei lá, alguma
coisa pra distraí-la enquanto eu ligo pro Sr. Blaick. – eu disse antes de
fechar a porta de volta.
Nunca disquei o telefone do chefe com tanta rapidez como
agora. Esperei o cara atender, mas nada dele pegar essa porcaria de telefone...
Atende logo! Liguei mais uma vez e espero que Richard atenda essa merda logo,
porque o casamento dele que está em jogo e não o meu. Depois de um tempo
finalmente ouvi a sua voz do outro lado da linha.
-Jonas? Acho bom ser algo muito importante para empresa
para me importunar agora. – meu chefe despejou todo o seu bom humor matinal.
Mas quem vai ter que ficar pianinho agora é ele!
-Senhor Blaick, não é exatamente sobre empresa, mas eu tenho
certeza que é um assunto muito importante e urgente. A sua filha está aqui
agora mesmo no prédio da empresa procurando pelo senhor. De acordo com ela, ela
vai passar alguns dias aqui na América para passar um tempo com o senhor. O que
eu faço? – e aí, fodão? Como vai se safar?
Pude ouvir o cara xingar uns quatro palavrões de uma vez
só do outro lado da linha. Quando se trata de atrapalhar a sua diversão com a
Lola, o cara perde a toda aquela compostura para xingar com aquele sotaque
refinado. Parece até cômico.
-Espera! – ele gritou do outro lado da linha. – Me deixa
pensar em alguma coisa... – depois de um minuto e falou novamente. – Faça as
suas malas. – o que? – Você vai vir para cá. Fale para ela que eu vou passar
uns dias aqui em Hamptons e que você também vai me acompanhar. Eu quero que
você demore bastante para sair daí e vai dar carona para minha filha até aqui.
Então eu acho bom você ser no mínimo muito responsável e respeitoso com ela,
você me ouviu? Eu quero que vocês venham
de carro para eu ganhar tempo. De jeito nenhum ela pode vir para cá de
helicóptero. Ela ainda deve pegar as malas dela no hotel também, é uma
oportunidade de gastar algum tempo até chegar aqui... E mais uma coisa! Não quero
que você fale NADA sobre a Lola, você me ouviu?
-Ouvi, sim. Mas o que vai acontecer com a senhorita
Thompson? – eu perguntei curioso. Que desculpa ele vai dar?
-Durante o trajeto de vocês eu penso em alguma coisa. Mas
faça o que eu digo, você me ouviu!? – ele ainda fala irado ao telefone.
-Entendi. – suspirei com um sorriso vitorioso no rosto. A
diversão em Hamptons dos dois acabou, mas a minha só vai começar. – Até mais,
senhor Blaick. – desliguei o telefone.
Saí finalmente do escritório, abotoando o meu terno, para
aparecer da melhor forma bem apresentado. Tentei ao máximo disfarçar a minha
cara de satisfação ao ver o Blaick nessa confusão. A atenção da Camila saiu do seu café expresso com
creme, que rapidamente deixou na mesinha ao lado, ao notar eu me aproximando
dela.
-Senhorita Blaick. - eu estendi a mão para ela e a
cumprimentei com delicadeza. –Sou Nicholas
Jonas, o assistente pessoal do seu pai.