Narrado por Nicholas
- Então, o que você quer aqui, Glen? – Perguntei, enquanto
acomodava-me na bancada para poder começar a comer.
Fiquei de costas para ele e queria evitar ao máximo olhar na
sua cara, pois se olhasse, iria querer descontar a raiva que eu estava tentando
digerir desde a noite anterior, mas sem nenhum sucesso.
Só de pensar no ocorrido, eu já sentia o ódio tomando conta
de mim de novo.
Ele a tocando. Ele a beijando. Ele tirando suas roupas e...
Merda! Ele tinha transado com ela!
O filho da puta transou com a porra da prostituta e quem
estava fodido era eu!
E o mais ridículo disso tudo, se é que poderia ficar ainda
mais ridículo do que já é, é que eu sabia que não havia motivo nenhum para
sentir raiva dele.
Não era como se ela me pertencesse.
Nem a mim e nem a ninguém.
Ela era uma puta e seria sempre de quem pudesse pagar mais. E
agora, entre nós dois, esse alguém era ele.
- Qual é, cara? – Ele se aproximou - Eu só quis dar uma
passada aqui. No outro dia você saiu lá de casa daquele jeito e... – Ele
colocou a mão no meu ombro e eu precisei respirar fundo e contar o conjunto
inteiro dos números reais positivos...
Não sei por que a imagem da Miley trocando olhares e
sorrisos com ele naquele dia do pub me invadiu a mente como um flash back de um
filme que eu odiei rever.
Ela estava dando mole pra ele. Provavelmente queria ficar
com ele naquela noite, não comigo.
- Tira a mão de mim! – Ordenei deixando transparecer a raiva
e vi o semblante de confusão se formar no rosto do Glen.
Ele não tinha culpa de nada. Ele só era a merda de um
milionário filho da puta que podia ter o que bem quisesse...
E ele quis ela.
E ele teve.
Quis socá-lo. Quis bater nele pra valer, só pra ver se faria
esse sentimento estúpido de derrota dentro do meu peito desaparecer, mas eu
sabia que era inútil.
Sempre haveria um próximo Glen.
E mesmo que eu o superasse e então o próximo após ele,
Richard Blaick estaria sempre ali, pra me colocar exatamente no lugar do qual
eu nunca consigo sair: bem à sua sombra.
Demorei um pouco pra perceber que isso não era só sobre a
Lola ou Miley, ou seja lá quem ela for quando está com eles. Na verdade, não
tinha muito a ver com ela. Isso era sobre mim e sobre como eu me sinto miúdo
quando me deparo com mais um cara desses atravessando o meu caminho.
Mais um deles me tirando tudo que eu realmente quero.
Ainda lembro exatamente o gosto amargo na boca do estômago
quando recebi a notícia do casamento da minha ex-namorada com o marido rico.
- É melhor você ir embora! – Resmunguei tentando evitar
problemas – Eu tive uma noite péssima e não estou de bom humor.
Glen achou que tinha o direito e tomou um lugar da minha
bancada para si.
- Ah cara, então nem vou te falar da minha, porque seria
sacanagem! – Gargalhou - Porque a minha foi incrível! – O imbecil tinha um
sorrisinho patético como que relembrando de algum detalhe em especial – Ah, aquela
mulher! – Suspirou - Não dá pra acreditar nas coisas que ela é capaz de fazer
na cama. Dá até pra entender por que o Blaick quis ela só pra ele... O que, na
minha humilde opinião, é um desperdício. – Ele soltou uma risada do próprio comentário
e eu já tinha perdido qualquer resquício de paciência.
Ele tinha vindo até a minha casa só pra esfregar na minha
cara sua noite e contar vantagem sobre como comeu a puta do Blaick?!
Senti meu punho formigar. Aquela cara de riquinho imbecil a
menos de um metro...
Não vá fazer nenhuma merda, Nicholas!
Respirei fundo mais uma vez.
Levantei e fui até a porta.
- Glen, se manda! – Abri e apontei para fora.
Ele pareceu não entender o comando no primeiro segundo, mas
não demorou muito pra perceber que eu estava mesmo falando sério. Seu ar de
superioridade tão característico murchou frente ao embate com a minha rispidez.
Ele levantou sem jeito e veio até a porta como se tudo aqui
estivesse lhe parecendo um episódio completamente improvável de sua vida
perfeita. Acho que ele nunca tinha experimentado a sensação: De não ser bem
recebido ou bem quisto em qualquer lugar que fosse. Mas devo dizer que, de
qualquer forma, eu ainda estava sendo educado, pois a minha real vontade era colocá-lo
para fora a pontapés e só não iria fazer isso por respeito aos nossos muitos
anos de amizade.
Ele parou na minha frente e me encarou. Um curto aceno como
se tivesse acabado de compreender alguma coisa que antes não entendia. Tirou do
bolso um papel que não consegui identificar inicialmente e estendeu à minha
frente.
Um cheque.
- O que diabos é isso?! – Questionei
- A sua parte. – Respondeu com obviedade - Era a boa notícia
que me fez dirigir até aqui no Brooklin só pra gente “comemorar” os lucros gerados
no negócio arriscado que fizemos, “Sócio”. – Continuou – Mas tá bom, é melhor
mesmo eu ir embora. A propósito, de nada. – Foi só o que ele disse antes de
sair e eu fechar a porta com um cheque de U$ 300.000,00 dólares em minhas mãos.
Narrado por Miley
Eu não sabia exatamente como tinha virado o “troféu” da
ridícula disputa imaginária entre os dois amiguinhos inconsequentes, mas era
exatamente isso que eu representava pra eles.
Não que eu realmente me importasse com o que eu significo
pra qualquer um deles, mas dessa vez eu estava preocupada.
Glen tinha ido até o John e quase ferrado com o meu trabalho
e o Nicholas...
O Nicholas tinha me beijado.
Estaria mentindo se dissesse que não passei boa parte da
madrugada pensando sobre aquele beijo...
Analisei cada detalhe. Cada toque. Cada gesto. Cada
sensação.
Não tinha nenhum joguinho de sedução envolvido naquele
beijo.
E eu até estava esperando por uma reação masculina típica do
Jonas, tipo: “Eu também quero um programa!” ou “Se deu pra ele vai ter que dar
pra mim também!” ou qualquer coisa baixa e vulgar desse gênero, mas aquele
beijo me pegou desprevenida.
E também tem tudo o que aconteceu antes do beijo: Ele foi
até lá. Tocou a campainha, insistentemente, realmente disposto a impedir o meu
programa e mais, ficou lá esperando por horas até que eu saísse.
“- Você transou com o
Glen , não foi?!”
“- Droga! Eu sei
disso, mas de qualquer forma ele não tinha esse direito!”
Ok, até aí tudo bem. Eu meio que esperava por esse tipo de
reação partindo dele. Não o conheço o bastante, mas já deu pra perceber que o
Jonas é o tipo possessivo obsessivo. Já tive clientes desse tipo: Eles me
consideravam como uma das suas propriedades e para eles seria absolutamente
imperdoável que outro homem – nesse caso específico, um amigo - estar
usufruindo do que eles achavam que era só deles. Na cabeça deles, isso era como
uma espécie de roubo, ou apropriação indébita, pra ser mais exata.
Eu entendia bem isso, porque a grande maioria dos homens de
negócios é assim, inclusive o próprio Richard Blaick. Sua necessidade por
domínio era tamanha que precisou fechar um contrato de exclusividade comigo,
tudo para garantir sua posse sobre mim.
Na linguagem dos negócios isso era ele assegurando um
investimento, na minha linguagem era ele praticamente urinando ao meu redor.
E até onde eu sei, o Nicholas é igualzinho o Blaick, apenas
alguns bilhões de dólares a menos.
Se o meu raciocínio estivesse certo e a questão do Jonas
fosse apenas isso, seu problema real seria só com o Glen e não comigo.
E de acordo com experiências anteriores, eu sabia que isso
passaria logo, pois os dois já transaram comigo e essa competiçãozinha por sexo
vai perdendo a graça. Eles iriam arranjar um outro “item” pra disputar e ponto.
História encerrada.
Entretanto foi a parte depois da “reação inicial” do Jonas
que realmente me incomodou: O pedido de desculpas e aquele jeito inseguro, todo
errado, tropeçando nas palavras e o olhar confuso... Tudo aquilo não se
encaixava em nada com a personalidade do cara arrogante e cheio de si que o
Nicholas faz questão de ser todos os dias.
“- Nick, o que está acontecendo?!”
“- Não está acontecendo nada! Será que dá pra parar de me fazer
perguntas?”
E então ele me trouxe pra casa. Nem se quer olhou na minha
cara durante o caminho inteiro e eu achei que ele tinha finalmente aceitado que
eu era uma prostituta e que ele estava sendo ridículo, afinal, eu só estava
fazendo o meu trabalho...
Tentei imaginar o que estaria se passando em seus
pensamentos e não demorei pra decidir a resposta: Glen e eu na cama, em
milhares de posições obscenas e nas mais diversas cenas eróticas que o
imaginário doentio do Jonas pudesse fabricar.
Não sei qual o motivo, mas os homens adoram se torturar
imaginando esse tipo de coisa.
Quando o carro parou, eu me preparei para a sua apatia,
fúria ou falta de educação. Essa seria a reação normal, o tipo para a qual eu
estava preparada e sabia como lidar. Contudo, quando ele me puxou e
simplesmente me beijou, eu... Eu realmente não soube o que fazer.
Poderia ter sido um beijo furioso e cheio de segundas
intenções, mas não. Não foi isso. Também não foi um beijo delicado ao estilo
romântico. Não era o tipo de beijo que se dá quando se está apaixonado, mas
também não era o tipo que se dá em uma prostituta.
Foi apenas um beijo. Alguma coisa entre incerto e
desesperado que me fez perder a linha de raciocínio na mesma hora.
Durou apenas alguns poucos segundos, mas foi suficiente pra
ratificar que eu gostava do gosto dos lábios do Jonas.
“- Como eu não sei se
haverá uma próxima vez, eu precisei tomar essa atitude”.
Não ia haver mesmo uma próxima vez, ou pelo menos não
deveria haver uma.
Eu não podia deixar acontecer...
Se o Jonas continuasse insistindo e eu cedesse, iria acabar
me metendo em problemas maiores com o John.
Eu já tinha quase perdido o contrato com o Blaick uma vez e
não iria arriscar isso de novo.
Preciso desse
dinheiro para o tratamento da Hellen e nada no mundo é mais importante do que
isso pra mim.
Nada!
Voltei a me concentrar no trabalho. Tinha passado algum
tempo divagando e ainda estava no terceiro capítulo de um livro de 600 páginas
que Demi havia me encarregado de traduzir no prazo “totalmente razoável” de
dois dias. Um e meio, se levarmos em conta que eu já havia desperdiçado boa
parte da manhã.
- Miley, chegou o nosso almoço. – Demi me alertou e eu me
corrigi mentalmente: desperdicei toda a manhã.
Seguimos até a cantina para almoçar. A gente sempre vinha
mais cedo ou bem mais tarde que todo mundo, pra evitar os horários de pico.
Nisso Demi e eu éramos bem parecidas, detestávamos lugares cheios de gente.
- E aí, o que tá achando do livro? É bom? – Ela perguntou
como quem não quer nada. – Eu sei que o prazo tá um pouco apertado, mas pelo menos
é um romance em francês, sei que é uma das suas preferências pra tradução,
porque segundo você “é fácil”. – Ela fez aspas com os dedos. Demi era péssima
em idiomas, eu já tinha tentado ensinar algumas coisas mais básicas pra ela e
nunca consigo fazer com que ela consiga decorar nem como se diz bom dia.
- Não é porque é fácil que você pode achar que eu faço
milagre! – Resmunguei - Qualquer dia desses eu vou te deixar na mão, só pra
você parar com essa sua mania de querer as coisas pra ontem e achar que eu
posso traduzir na velocidade da luz!
- Foi mal, mas você sabe como é aquele cretino pra quem a
gente trabalha! – Retrucou – Ontem ele me apareceu com esse livro e disse: “Preciso
disso pra daqui a três dias!” – Fez uma péssima imitação de uma voz masculina
que deveria ser a do nosso chefe – Além do mais eu te dei dois dias pra
traduzir e vou ficar com um só pra fazer a revisão final, você ainda está no
lucro!
- Não senhora, no lucro está você porque sabe que eu faço um
trabalho tão bem feito que nem precisa revisar tão minuciosamente depois! –
Aleguei e ela me encarou com um sorrisinho.
- E é por isso que eu te adoro e você é a minha melhor
tradutora! – Ela segurou no meu ombro em um cumprimento.
- Então, acho que eu posso começar a esperar por um aumento?
– Arrisquei
- E é por isso que você não é só a minha melhor tradutora, mas
a minha melhor amiga! – Ela alargou mais o sorriso – Porque faz tudo isso sem
esperar nada em troca!
Eu tive que rir disso, pelo menos pra não começar a chorar
por não ter nem a chance de um aumento.
A Demi me acompanhou nas risadas.
- Mas me conta, sobre o que é o livro que segundo o Chad vai
ser “o próximo Crepúsculo”? – Ela perguntou
- Bom, se ele está usando como parâmetro o fato de essa
também ser uma história completamente absurda e fora da realidade, ele tem toda
razão! É um romance bem meia boca, ainda não cheguei muito longe, mas me
pareceu um manuscrito daqueles bem mixurucas. – Contei – Ah, e só pra completar
o pacote, advinha só o nome do personagem principal masculino.
- Ahn... Edward? – Ela mesma riu do seu palpite e eu apenas
neguei – Christian, Caleb, Will, John?
Eu precisei rir antes de responder.
- Nicholas.
A Demi gargalhou.
-Nicholas?! Não acredito!
- Pois acredite...
O ultimo nome no qual eu queria pensar era justamente o nome
do personagem do livro que eu estava traduzindo. Vai ver foi por isso que eu
perdi a manhã toda divagando sobre um beijo que não significou absolutamente
nada pra mim.
- Ah, mas Nicholas até que é um nome que tem um certo
charme, vai... – Sugeriu e eu rolei os olhos. – Tem aquele apelo forte e viril,
sabe? “Nicholas”, soa poderoso na boca. – A Demi estava viajando – Tá, mas me
fala do contexto? Do que exatamente você não gostou, exceto o personagem
principal que te remete ao seu atual desafeto?
- Sinceramente? O problema nem é o Nicholas, dele eu até
gostei. – Demi me encarou – Eu estou falando do cara do livro, só pra deixar
claro! - Fiz questão de completar - Pra
mim, o problema da trama está em todo o universo criado para as personagens.
Com todo o respeito que devo aos autores de determinados Best-sellers, nem
preciso dizer que sempre achei clichê demais esses romances onde o personagem
masculino é um milionário jovem e solitário, que apesar de ter tudo na vida, é
infeliz e só encontra o real sentido de sua existência quando aparece a
personagem principal feminina, por quem ele se apaixona perdidamente... Isso é
uma baboseira! Será que ainda não perceberam que não acontece assim na vida
real?
- Ah, mas de repente pode acontecer! – Demi defendeu
- É sério? De repente? Você jura que acredita mesmo nisso? –
Questionei e Demi deu de ombros como quem diz “Por que não?!” – Ok, vamos usar
o meu exemplo. Já tive a oportunidade de conhecer um bom número de milionários
e fui pra cama com boa parte desse número. Sabe quantos deles se apaixonaram
perdidamente por mim e vieram me propor casamento no dia seguinte? Nenhum. Sabe
por quê? Porque estamos no mundo real e nesse mundo a última coisa que um cara
desses está procurando é amor. Agora se
nos livros dissessem que tudo que eles querem é uma trepada boa aí eu iria ter que
concordar!
Fiz a Demi quase se engasgar com o seu suco com tamanha
franqueza do meu comentário. Não sei por que ela ainda não se acostumou com o
meu jeito tão aberto de falar sobre sexo.
- Desse jeito você consegue detonar com qualquer romance! –
Ela balançou a cabeça em descrédito.
- Por quê? Só por que é verdade? – Questionei – Ah, outra
coisa: Você sabe o trabalho que dá conseguir um minuto de atenção de um cara
desses?! E no livro a tal da Alicia só precisou aparecer em uma noite qualquer
numa festa com um vestidinho brega e um sorriso ingênuo e já virou o verdadeiro
amor do Nicholas... Patético! – Bufei - Mas o que mais eu poderia esperar de um
livro intitulado: “Uma chance de romance”. Brega! Totalmente... Até o título.
- Quanto ao título concordo com você, meio brega mesmo.
Podíamos mudar pra um título diferente, aproveitar a licença que temos que não
nos obriga a traduzir literalmente. – Concordou – Ei, mas você tá enrolando e até
agora não falou nada sobre esse tal “Nicholas”... Como ele é?
- Bom, como posso descrever fielmente... – Tentei encontrar
as palavras - Ele parece ter saído de algum delírio imaginativo de uma mulher bêbada
e carente, de tão perfeito. O cara é amável, gentil, cavalheiro e segundo as
palavras da própria autora: lindo de morrer. Adora cavalos, vinhos e obras de
arte e ainda por cima é podre de rico. Resumindo: Onde é a fila pra pegar um
desses pra mim?
A Demi sorriu.
- E pra mim, também quero um! – Ela levantou a mão entrando
na brincadeira – Mas mudando um pouco de assunto, ou melhor, mudando de
Nicholas... Ele foi lá em casa ontem, estava meio desesperado, procurando por
você. – Essa parte eu ainda não sabia, mas devia ter deduzido a julgar por todo
o resto.
- E ele me achou. Foi até a casa do Glen e tentou arruinar o
meu programa, acredita?! – Contei – Sinceramente, eu não sei o que deu no
Jonas! Nós já tínhamos conversado e ele parecia ter entendido que eu não estou
disponível, mas ele é um cara que sabe como ser persistente!
- Ele sempre disse que essa é uma das maiores qualidades
dele. – Demi alegou
- Ah nisso eu acredito. Convencido do jeito que ele é... –
Retruquei.
-É, e esse é um dos defeitos... Mas, acredite: ele ainda é o
melhor cara que eu conheço! – Ela, como amiga, o defendeu.
- Isso é por que você não conhece mais ninguém! Já disse que
você precisa sair mais, conhecer gente nova e também precisa fazer novas
amizades! – Aleguei e Demi apenas riu e insistiu que o Nick era um cara bacana,
que eu apenas precisava conhecê-lo melhor.
Talvez, de algum jeito, ele até fosse mesmo um cara bacana,
mas eu não me daria o trabalho de conhecê-lo melhor, de qualquer maneira.
Depois do almoço voltei ao romance piegas. O desenrolar da
história era totalmente previsível e eu já estava achando que autora estava
usando palavras demais para descrever os muitos atributos do “Nick” – Aparentemente
só existe esse apelido no mundo inteiro para o nome Nicholas – seus gostos, sua
personalidade, mas principalmente o seu tipo físico. Em certo trecho ela gastou
quase um parágrafo inteiro só pra descrever sua boca.
Tentei deter o pensamento, mas foi inevitável.
Pensei em sua boca.
Não a do personagem, a “dele”.
E o mais engraçado, não era no beijo que eu estava pensando
e sim no sorriso. Aquele sorrisinho convencido e petulante que aparecia
dançando em seus lábios sempre que ele cuspia alguma de suas besteiras patéticas
e prepotentes.
O personagem do livro era um milionário refinado, mas o
real, ele era um Nicholas bem mais interessante.
Se ele já é arrogante do jeito que é, sendo ele apenas um
simples assistente, imagina só o tamanho do seu ego se ele fosse tão poderoso
quanto Blaick.
Definitivamente, se ele fosse um milionário, seria o pior
tipo.
Seria um babaca egocêntrico e pretensioso que acharia que tudo no mundo inteiro
tem uma etiqueta escrito “à venda”, principalmente as pessoas. Nunca seria
delicado ou gentil com ninguém, porque ia achar que as outras pessoas não eram
dignas da sua “benevolência”. Também não teria tempo pra cavalos, vinhos ou obras
de arte, pois estaria ocupado demais destruindo outros milionários até mesmo em
suas horas de lazer...
E ele jamais se sentiria vazio por algo tão patético como
não ter o amor da sua vida ao seu lado.
Afinal, quem precisa disso quando se tem dinheiro pra ter
qualquer coisa que quisesse?
E dinheiro ele teria dinheiro aos montes, poderia ter a
mulher quisesse.
Poderia ter até mesmo a mim.
A maior parte das coisas que desejamos na vida, só as
desejamos porque não podemos ter.
Se ele pudesse me ter sempre que quisesse, será que ainda me desejaria?
Provavelmente, eu seria só mais uma diversão de uma noite
qualquer, assim como fui pra todos os outros.
Eu o não o conhecia, mas nem precisava, pois já tinha
conhecido muitos dele antes, com outros nomes, outros rostos e as mesmas
intenções.
Sabia o suficiente sobre os homens como o Nicholas.
Sua fome por poder é implacável e o poder é a única coisa
que pode fazer ele se sentir completo.
Algumas pessoas não sabem a diferença.
A sutil e quase imperceptível diferença entre o dinheiro e o
poder.
A maioria de nós acredita que o poder é consequência do
dinheiro. Que com dinheiro, o poder surge quase que automaticamente, mas isso
não é verdade. O poder é algo característico, ou você tem ou não tem. Um bom
exemplo pra provar o meu ponto é observar o que diferencia aquela loira, líder
de torcida e gostosa do colégio. O que faz com que todas as outras garotas
desejem ser como ela? É os milhões na conta dos pais dela, ou a Mercedes
importada, as roupas de alguma grife de moda? Não. Não é apenas isso, é todo o
conjunto. É o jeito perfeito como ela reúne todas as características certas e
as usa com perfeição pra subjulgar todos os outros e conseguir exatamente
aquilo que quer. Isso é poder, e é isso que as outras garotas invejam nela, mas
não sabem e acham que é apenas o dinheiro...
Alguns milionários jamais serão homens poderosos. Serão
apenas homens muito, muito ricos.
Já outros, como o Blaick, nasceram pra conseguir tudo o que
quiserem.
Isso é o poder.
O dinheiro? Bom, ele é apenas uma parte da disputa pelo
poder.
Uma parte bem importante, é claro.
A parte que faltava ao Nicholas.
(...)
Demi chacoalhou uma
caixa de bombons finos bem no meu campo de visão, interrompendo a minha divagação
que deveria ser uma leitura/tradução.
- De onde você tirou isso? Ganhou foi? – Encarei-a com um
sorriso.
- Ah, claro que ganhei de um dos meus milhares de
admiradores, que sempre me mandam mimos caros como esse! – Ela rolou os olhos,
irônica, enquanto abria a caixa e pegava um bombom – São do cretino do Ched. – Ela
disse o nome do nosso chefe, que todos nós detestávamos, cheia de desprezo – Um
dos clientes enviou pra ele e já que seria eu quem escreveria o cartão de
agradecimento de qualquer forma, achei que a gente merecia isso bem mais do que
aquele imbecil! – Estendeu-me novamente a caixa e eu peguei um.
Demi estava sentada em sua cadeira de qualquer jeito e havia
tirado os sapatos de salto e soltado o coque dos cabelos. Olhava para a tela
sem nem piscar e digitava como uma louca.
Olhei ao redor e notei que não havia mais ninguém além de
nós duas. Só então percebi que já tínhamos extrapolado o horário do trabalho há
pelo menos duas horas e eu acabei nem percebendo.
- Olha só a hora, é melhor irmos pra casa! – Levantei-me –
Vamos levar a caixa de bombons do Chad e no caminho a gente compra aquele vinho
branco maravilhoso que a gente bebeu outro dia. – Peguei a caixa sobre sua
mesa.
- Só um minuto! – Ela continuava digitando freneticamente –
Estou trabalhando num projeto novo e preciso finalizar esse parágrafo, aproveitando
a inspiração, mas concordo totalmente com esse negócio de vinho!
- Livro novo? – Fiquei curiosa
- Mais ou menos. – Ela sorriu – É só uma ideia ainda, não
tenho muita certeza se consigo desenvolver, pois é muito diferente de qualquer
coisa que eu já escrevi.
Senti sua insegurança, pelo jeito como a frase soou.
- Demi, você é a melhor escritora que eu conheço. Inclusive,
você é melhor que a maioria dos autores que a gente publica aqui! – Olhei-a com
confiança – Tenho certeza que seja lá o que for essa sua ideia, você vai dar
conta!
- É que da ultima vez... - Interrompi
- Da ultima vez, o Chad não publicou o seu livro porque
ficou morrendo de inveja. – Retruquei – O cara é um completo imbecil! Estava
com medo de perder a assistente que faz todo o trabalho dele.
- Pode ser, mas ele tinha razão sobre o livro... – Ela
rebateu – Não era tão bom! A pior parte é que ele sempre tem razão sobre tudo!
Por isso é o editor chefe e eu só a assistente!
- Demi, a gente vai lançar uma droga de livro de romance na
semana que vem! – Lembrei-a – É a história mais sem graça que já li, tenho
certeza que qualquer coisa que você escrevesse seria melhor! Aliás, qualquer
coisa que o cara que faz entrega de pizza escrevesse seria melhor também! –
Revirei os olhos - O Chad é um babaca pretensioso e você precisa parar de
coloca-lo num pedestal como se ele fosse bom no que ele faz porque ele não é!
Ele só tem um emprego ainda por sua causa! Porque fica encobrindo os erros
dele!
Eu despejei tudo de uma vez e Demi apenas respirou fundo.
Ela detestava aquele imbecil, mas por algum motivo ela
sempre acabava fazendo o que ele queria.
E mais uma vez eu notei uma relação disfuncional de poder.
Nesse caso, Chad tinha o poder, ou pelo menos era nisso que
ele tinha feito a Demi acreditar.
- Acho melhor a gente ir pra casa, agora! – Ela levantou-se
– Eu estou precisando de uma taça daquele vinho que você me prometeu.
(...)
Seguimos para casa e no caminho compramos o vinho, duas
garrafas. Nosso plano era bastante simples: Encher a cara e comer bombons finos
até que não conseguíssemos mais lembrar nossos próprios nomes ou até que
começássemos a vomitar, o que acontecesse primeiro.
Ao sairmos do elevador encontramos o nosso vizinho Mateo.
- Oi meninas! – Ele cumprimentou com seu largo sorriso. Ele
nos abraçou e beijou como de costume. E como de costume o beijo e o abraço em
mim foram mais longos que o recomendável – Vejo que a noite será divertida! –
Referiu-se as garrafas em minha sacola.
- Com certeza! Você sabe o que dizem: Muito trabalho e
nenhuma diversão acabam com qualquer um! – Demi alegou sorrindo.
- Ouvir isso logo da pessoa mais viciada em trabalho que eu
conheço, isso sim é uma surpresa! – Mateo brincou
- Sou cheia de surpresas, meu bem! – Demi piscou um olho
para o rapaz, que pareceu ficar bem sem jeito com o gesto, mas não o
suficiente.
- Bom, eu também estou procurando por diversão... – Tentou –
Vocês bem que poderiam me chamar pra festa.
A Demi me olhou com um sorrisinho. Eu sabia que ela achava o
Mateo um gato e vivia tentando bancar a casamenteira pra cima de mim, então
antes que ela dissesse qualquer coisa eu intervi.
- Desculpe, mas essa noite é só das meninas. – Tentei ser o
mais gentil possível ao dispensá-lo – Mas vamos chamar todo mundo uma próxima
vez... Eu prometo! – Sim, eu disse todo mundo em ênfase de propósito.
Eu já estava indo em direção a nossa porta para abri-la e o
Mateo apenas se despediu um pouco sem graça e seguiu seu próprio caminho
enquanto nós duas entravamos no nosso apartamento.
- Às vezes eu me pergunto se você tem uma pedra de gelo no
lugar onde deveria estar um coração! – Ela fechou a porta atrás de si.
- Lá vem você! – Eu disse indo procurar o saca-rolhas
enquanto Demi se livrava de seus sapatos de salto e me seguia até a cozinha.
- Me diz o que mais que você quer, hein? – Ele me encarou –
O Matt é um cara ótimo e pelo amor de Deus, todo mundo nesse prédio sabe que
ele tem uma queda por você! – Exclamou
Ela pegou as taças no armário e eu finalmente achei o
abridor.
Seguimos para a nossa miniatura de sala e Demi jogou-se no
sofá desabotoando sua camisa social. Eu também me livrei dos meus saltos tão
absolutamente lindos quanto desconfortáveis e já que a folgada estava tomando o
sofá todo sentei-me no chão, com as costas recostadas no sofá.
Entreguei-lhe uma taça cheia de vinho e enchi uma pra mim
também.
- É um completo desperdício! – Ela continuou - Juro que se fosse
comigo, você ia estar aqui bebendo esse vinho sozinha agora, porque eu iria
estar lá no apartamento do vizinho fazendo alguma coisa realmente interessante
com aquele homem completamente gostoso!
- Nós duas sabemos bem que você é só garganta! – Encarei-a e
ela me deu língua. – Além do mais, não é que eu não concorde sobre ele ser
gostoso, porque ele é, mas não posso fazer isso com o Matt.
- Ué, por que não? Seria só sexo casual, duvido que ele iria
se importar! – Ela rolou os olhos.
- Seria isso pra mim, mas não seria pra ele. – Respirei
fundo – O Matt gosta de mim, Demi. Não estou dizendo que ele me ama, ou que está
apaixonado, mas ele sente algo por mim, e eu sei disso. – Encarei o vinho em
minha taça - Se a gente tivesse alguma coisa, qualquer coisa, ele poderia criar
expectativas e querer algo mais. Algo que alguém como eu não pode dar, você
sabe, por causa do que eu faço. – Suspirei - Aí ele iria querer uma chance e eu não iria
dar. Não iria poder dar. Ele iria querer saber o porquê e eu iria dizer o que?
Algo tipo: Desculpe Matt, mas não posso sair com você porque eu sou prostituta!
- Miley... Me desculpa, eu nem pensei nisso, eu só... Eu sou
uma tonta! – Demi pediu desculpas
- Não, não é não. Você é a minha melhor amiga – Olhei-a com
carinho – Você é uma das únicas pessoas que sabe realmente o que eu faço e
consegue não pensar apenas nisso quando olha pra mim, e eu te adoro por isso! –
Ergui a minha taça para brindarmos – Além do mais eu tenho certeza que você não
iria me trocar pelo primeiro vizinho gostoso que aparecesse e eu estou apenas
retribuindo o favor!
Nós duas rimos.
- Não sei não, do jeito que as coisas estão feias pro meu
lado ultimamente, eu acho que te trocaria sim pelo nosso vizinho gato! – Ela
bebeu uma golada de vinho
- As coisas só estão feias pro seu lado porque você ainda
não apareceu com esse seu decote sexy pelos corredores – Apontei pros seus
peitos e a Demi riu
- Ah é, com certeza eu iria fazer sucesso por aqui... Mas
como “a tarada do 506”! – Ela rolou os olhos rindo e eu quase engasguei com o
vinho.
- Bom, você podia experimentar dar uma passada lá no apartamento
do Matt quando a gente terminar essas garrafas... Acho que ele não iria achar
ruim não, conhecer a tarada do 506! – Sugeri
- Bem que eu queria, mas aquele ali é batalha perdida, só
tem olhos pra você... Mas pelo menos eu ainda posso me consolar fantasiando com
aquele deus nórdico do outro dia, como é que ele chamava mesmo: - Pensou - Ah é, Glen! – Ela suspirou – Aquilo sim que é
um homem!
- Preciso concordar... E sabe, acho que vocês se dariam bem,
apesar dele não ser o tipo certo pra nenhuma garota.
- Amiga, o meu tipo certo é qualquer um que tenha aquele
rosto! – Ela riu safada – E aquela bunda linda!
- Isso é verdade. É linda mesmo, já vi ao vivo! – Eu disse e
Demi me apedrejou com uma almofada.
- Não acredito que você ainda recebe pra ir pra cama com um
homem lindo daqueles, puta merda! – Reclamou
- São os ossos do ofício, fazer o que... – Nós rimos e
bebemos mais
(...)
A nossa segunda garrafa estava quase no fim e a caixa de
bombons já estava vazia há algum tempo. Demi e eu estávamos completamente altas
conversando e rindo sobre uma série de bobagens sem sentido algum. Na maior
parte do tempo nós duas éramos bastante responsáveis então era simplesmente
divertido, pelo menos de vez em quando, só rir um pouco e falar um monte de besteiras.
Acho que é disso que as boas amizades são feitas.
O único problema é quando se está bêbada você acaba sempre
falando demais...
- ... Ok. Eu tenho um segredo – Demi fez uma pausa dramática
antes de continuar – Eu cuspo no café que levo pro Chad. – Ela tentou ficar
séria, mas pra mim a gargalhada foi inevitável
- Cara, você é inacreditável! – Falei – Então quer dizer que
o nosso chefinho bebe seu cuspe todas as manhãs?
- É, e esporadicamente, algumas tardes também. – Ela bebeu
mais ainda rindo da cena em sua mente – Mas agora é sua vez de contar um
segredo! – Ela preencheu nossas taças com vinho.
- Eu definitivamente não tenho nenhum segredo melhor do que
esse! – Argumentei – Ok, ok eu vou contar um segredo... – Respirei fundo – Ontem, depois que eu saí do programa com o
Glen, o Nick me beijou. – Demi arregalou os olhos me encarando
- Não acredito! Eu sabia! – Ela berrou – Sabia que ele
estava afim de você!
- É claro que não, Demi! – Interrompi negando a parte sobre
o Jonas estar realmente interessado em mim, pois já havia descartado
completamente essa possibilidade – Mas a parte que é segredo é que... Eu acho
que gostei.
Continua...
Eeeee.... vcs voltaram. Estou mega feliz. Adorei o capítulo. Passou tanto tempo sem postar q eu tive q dar uma relida na história toda pra lembrar de tudo. Não demora pra postar por favor. Bjos!!!!!
ResponderExcluirFinalmente voltamos! hahaha eu também tive que reler os capítulos e aí ressurgiu a vontade de continuar a escrever com as meninas. Obrigada pelo comentário, Jeel <3 é sempre bom ter um feedback!!
ExcluirE não demoramos a postar nao haha Depois dessa capítulo mara da Amy, eu acabei de postar hoje o capítulo 18.
Espero que goste :)
Beijo