domingo, 17 de fevereiro de 2019

One More Night - Capítulo 17


Narrado por Nicholas

- Então, o que você quer aqui, Glen? – Perguntei, enquanto acomodava-me na bancada para poder começar a comer.

Fiquei de costas para ele e queria evitar ao máximo olhar na sua cara, pois se olhasse, iria querer descontar a raiva que eu estava tentando digerir desde a noite anterior, mas sem nenhum sucesso.
Só de pensar no ocorrido, eu já sentia o ódio tomando conta de mim de novo.

Ele a tocando. Ele a beijando. Ele tirando suas roupas e...

Merda! Ele tinha transado com ela!

O filho da puta transou com a porra da prostituta e quem estava fodido era eu!

E o mais ridículo disso tudo, se é que poderia ficar ainda mais ridículo do que já é, é que eu sabia que não havia motivo nenhum para sentir raiva dele.

Não era como se ela me pertencesse. 

Nem a mim e nem a ninguém. 

Ela era uma puta e seria sempre de quem pudesse pagar mais. E agora, entre nós dois, esse alguém era ele.

- Qual é, cara? – Ele se aproximou - Eu só quis dar uma passada aqui. No outro dia você saiu lá de casa daquele jeito e... – Ele colocou a mão no meu ombro e eu precisei respirar fundo e contar o conjunto inteiro dos números reais positivos...

Não sei por que a imagem da Miley trocando olhares e sorrisos com ele naquele dia do pub me invadiu a mente como um flash back de um filme que eu odiei rever.

Ela estava dando mole pra ele. Provavelmente queria ficar com ele naquela noite, não comigo.

- Tira a mão de mim! – Ordenei deixando transparecer a raiva e vi o semblante de confusão se formar no rosto do Glen.

Ele não tinha culpa de nada. Ele só era a merda de um milionário filho da puta que podia ter o que bem quisesse...

E ele quis ela. 

E ele teve.

Quis socá-lo. Quis bater nele pra valer, só pra ver se faria esse sentimento estúpido de derrota dentro do meu peito desaparecer, mas eu sabia que era inútil. 

Sempre haveria um próximo Glen.

E mesmo que eu o superasse e então o próximo após ele, Richard Blaick estaria sempre ali, pra me colocar exatamente no lugar do qual eu nunca consigo sair: bem à sua sombra.

Demorei um pouco pra perceber que isso não era só sobre a Lola ou Miley, ou seja lá quem ela for quando está com eles. Na verdade, não tinha muito a ver com ela. Isso era sobre mim e sobre como eu me sinto miúdo quando me deparo com mais um cara desses atravessando o meu caminho.

Mais um deles me tirando tudo que eu realmente quero.

Ainda lembro exatamente o gosto amargo na boca do estômago quando recebi a notícia do casamento da minha ex-namorada com o marido rico.

- É melhor você ir embora! – Resmunguei tentando evitar problemas – Eu tive uma noite péssima e não estou de bom humor.

Glen achou que tinha o direito e tomou um lugar da minha bancada para si.

- Ah cara, então nem vou te falar da minha, porque seria sacanagem! – Gargalhou - Porque a minha foi incrível! – O imbecil tinha um sorrisinho patético como que relembrando de algum detalhe em especial – Ah, aquela mulher! – Suspirou - Não dá pra acreditar nas coisas que ela é capaz de fazer na cama. Dá até pra entender por que o Blaick quis ela só pra ele... O que, na minha humilde opinião, é um desperdício.  – Ele soltou uma risada do próprio comentário e eu já tinha perdido qualquer resquício de paciência.

Ele tinha vindo até a minha casa só pra esfregar na minha cara sua noite e contar vantagem sobre como comeu a puta do Blaick?!

Senti meu punho formigar. Aquela cara de riquinho imbecil a menos de um metro...

Não vá fazer nenhuma merda, Nicholas!

Respirei fundo mais uma vez.

Levantei e fui até a porta. 

- Glen, se manda! – Abri e apontei para fora.

Ele pareceu não entender o comando no primeiro segundo, mas não demorou muito pra perceber que eu estava mesmo falando sério. Seu ar de superioridade tão característico murchou frente ao embate com a minha rispidez.

Ele levantou sem jeito e veio até a porta como se tudo aqui estivesse lhe parecendo um episódio completamente improvável de sua vida perfeita. Acho que ele nunca tinha experimentado a sensação: De não ser bem recebido ou bem quisto em qualquer lugar que fosse. Mas devo dizer que, de qualquer forma, eu ainda estava sendo educado, pois a minha real vontade era colocá-lo para fora a pontapés e só não iria fazer isso por respeito aos nossos muitos anos de amizade.

Ele parou na minha frente e me encarou. Um curto aceno como se tivesse acabado de compreender alguma coisa que antes não entendia. Tirou do bolso um papel que não consegui identificar inicialmente e estendeu à minha frente.

Um cheque.

- O que diabos é isso?! – Questionei

- A sua parte. – Respondeu com obviedade - Era a boa notícia que me fez dirigir até aqui no Brooklin só pra gente “comemorar” os lucros gerados no negócio arriscado que fizemos, “Sócio”. – Continuou – Mas tá bom, é melhor mesmo eu ir embora. A propósito, de nada. – Foi só o que ele disse antes de sair e eu fechar a porta com um cheque de U$ 300.000,00 dólares em minhas mãos.

Narrado por Miley

Eu não sabia exatamente como tinha virado o “troféu” da ridícula disputa imaginária entre os dois amiguinhos inconsequentes, mas era exatamente isso que eu representava pra eles.

Não que eu realmente me importasse com o que eu significo pra qualquer um deles, mas dessa vez eu estava preocupada.

Glen tinha ido até o John e quase ferrado com o meu trabalho e o Nicholas...

O Nicholas tinha me beijado.

Estaria mentindo se dissesse que não passei boa parte da madrugada pensando sobre aquele beijo...

Analisei cada detalhe. Cada toque. Cada gesto. Cada sensação.

Não tinha nenhum joguinho de sedução envolvido naquele beijo. 

E eu até estava esperando por uma reação masculina típica do Jonas, tipo: “Eu também quero um programa!” ou “Se deu pra ele vai ter que dar pra mim também!” ou qualquer coisa baixa e vulgar desse gênero, mas aquele beijo me pegou desprevenida.

E também tem tudo o que aconteceu antes do beijo: Ele foi até lá. Tocou a campainha, insistentemente, realmente disposto a impedir o meu programa e mais, ficou lá esperando por horas até que eu saísse.

“- Você transou com o Glen , não foi?!”

“- Droga! Eu sei disso, mas de qualquer forma ele não tinha esse direito!”

Ok, até aí tudo bem. Eu meio que esperava por esse tipo de reação partindo dele. Não o conheço o bastante, mas já deu pra perceber que o Jonas é o tipo possessivo obsessivo. Já tive clientes desse tipo: Eles me consideravam como uma das suas propriedades e para eles seria absolutamente imperdoável que outro homem – nesse caso específico, um amigo - estar usufruindo do que eles achavam que era só deles. Na cabeça deles, isso era como uma espécie de roubo, ou apropriação indébita, pra ser mais exata.

Eu entendia bem isso, porque a grande maioria dos homens de negócios é assim, inclusive o próprio Richard Blaick. Sua necessidade por domínio era tamanha que precisou fechar um contrato de exclusividade comigo, tudo para garantir sua posse sobre mim.

Na linguagem dos negócios isso era ele assegurando um investimento, na minha linguagem era ele praticamente urinando ao meu redor. 

E até onde eu sei, o Nicholas é igualzinho o Blaick, apenas alguns bilhões de dólares a menos.
Se o meu raciocínio estivesse certo e a questão do Jonas fosse apenas isso, seu problema real seria só com o Glen e não comigo. 

E de acordo com experiências anteriores, eu sabia que isso passaria logo, pois os dois já transaram comigo e essa competiçãozinha por sexo vai perdendo a graça. Eles iriam arranjar um outro “item” pra disputar e ponto. História encerrada.

Entretanto foi a parte depois da “reação inicial” do Jonas que realmente me incomodou: O pedido de desculpas e aquele jeito inseguro, todo errado, tropeçando nas palavras e o olhar confuso... Tudo aquilo não se encaixava em nada com a personalidade do cara arrogante e cheio de si que o Nicholas faz questão de ser todos os dias.

“- Nick, o que está acontecendo?!”

“- Não está acontecendo nada! Será que dá pra parar de me fazer perguntas?”

E então ele me trouxe pra casa. Nem se quer olhou na minha cara durante o caminho inteiro e eu achei que ele tinha finalmente aceitado que eu era uma prostituta e que ele estava sendo ridículo, afinal, eu só estava fazendo o meu trabalho...

Tentei imaginar o que estaria se passando em seus pensamentos e não demorei pra decidir a resposta: Glen e eu na cama, em milhares de posições obscenas e nas mais diversas cenas eróticas que o imaginário doentio do Jonas pudesse fabricar. 

Não sei qual o motivo, mas os homens adoram se torturar imaginando esse tipo de coisa.

Quando o carro parou, eu me preparei para a sua apatia, fúria ou falta de educação. Essa seria a reação normal, o tipo para a qual eu estava preparada e sabia como lidar. Contudo, quando ele me puxou e simplesmente me beijou, eu... Eu realmente não soube o que fazer.

Poderia ter sido um beijo furioso e cheio de segundas intenções, mas não. Não foi isso. Também não foi um beijo delicado ao estilo romântico. Não era o tipo de beijo que se dá quando se está apaixonado, mas também não era o tipo que se dá em uma prostituta.

Foi apenas um beijo. Alguma coisa entre incerto e desesperado que me fez perder a linha de raciocínio na mesma hora. 

Durou apenas alguns poucos segundos, mas foi suficiente pra ratificar que eu gostava do gosto dos lábios do Jonas. 

“- Como eu não sei se haverá uma próxima vez, eu precisei tomar essa atitude”.

Não ia haver mesmo uma próxima vez, ou pelo menos não deveria haver uma. 

Eu não podia deixar acontecer...

Se o Jonas continuasse insistindo e eu cedesse, iria acabar me metendo em problemas maiores com o John. 

Eu já tinha quase perdido o contrato com o Blaick uma vez e não iria arriscar isso de novo.

 Preciso desse dinheiro para o tratamento da Hellen e nada no mundo é mais importante do que isso pra mim.

Nada!

Voltei a me concentrar no trabalho. Tinha passado algum tempo divagando e ainda estava no terceiro capítulo de um livro de 600 páginas que Demi havia me encarregado de traduzir no prazo “totalmente razoável” de dois dias. Um e meio, se levarmos em conta que eu já havia desperdiçado boa parte da manhã.

- Miley, chegou o nosso almoço. – Demi me alertou e eu me corrigi mentalmente: desperdicei toda a manhã.

Seguimos até a cantina para almoçar. A gente sempre vinha mais cedo ou bem mais tarde que todo mundo, pra evitar os horários de pico. Nisso Demi e eu éramos bem parecidas, detestávamos lugares cheios de gente.

- E aí, o que tá achando do livro? É bom? – Ela perguntou como quem não quer nada. – Eu sei que o prazo tá um pouco apertado, mas pelo menos é um romance em francês, sei que é uma das suas preferências pra tradução, porque segundo você “é fácil”. – Ela fez aspas com os dedos. Demi era péssima em idiomas, eu já tinha tentado ensinar algumas coisas mais básicas pra ela e nunca consigo fazer com que ela consiga decorar nem como se diz bom dia.

- Não é porque é fácil que você pode achar que eu faço milagre! – Resmunguei - Qualquer dia desses eu vou te deixar na mão, só pra você parar com essa sua mania de querer as coisas pra ontem e achar que eu posso traduzir na velocidade da luz!

- Foi mal, mas você sabe como é aquele cretino pra quem a gente trabalha! – Retrucou – Ontem ele me apareceu com esse livro e disse: “Preciso disso pra daqui a três dias!” – Fez uma péssima imitação de uma voz masculina que deveria ser a do nosso chefe – Além do mais eu te dei dois dias pra traduzir e vou ficar com um só pra fazer a revisão final, você ainda está no lucro!

- Não senhora, no lucro está você porque sabe que eu faço um trabalho tão bem feito que nem precisa revisar tão minuciosamente depois! – Aleguei e ela me encarou com um sorrisinho.

- E é por isso que eu te adoro e você é a minha melhor tradutora! – Ela segurou no meu ombro em um cumprimento.

- Então, acho que eu posso começar a esperar por um aumento? – Arrisquei

- E é por isso que você não é só a minha melhor tradutora, mas a minha melhor amiga! – Ela alargou mais o sorriso – Porque faz tudo isso sem esperar nada em troca!

Eu tive que rir disso, pelo menos pra não começar a chorar por não ter nem a chance de um aumento. 
A Demi me acompanhou nas risadas.

- Mas me conta, sobre o que é o livro que segundo o Chad vai ser “o próximo Crepúsculo”? – Ela perguntou

- Bom, se ele está usando como parâmetro o fato de essa também ser uma história completamente absurda e fora da realidade, ele tem toda razão! É um romance bem meia boca, ainda não cheguei muito longe, mas me pareceu um manuscrito daqueles bem mixurucas. – Contei – Ah, e só pra completar o pacote, advinha só o nome do personagem principal masculino.

- Ahn... Edward? – Ela mesma riu do seu palpite e eu apenas neguei – Christian, Caleb, Will, John?
Eu precisei rir antes de responder.

- Nicholas.

A Demi gargalhou.

-Nicholas?! Não acredito!

- Pois acredite...

O ultimo nome no qual eu queria pensar era justamente o nome do personagem do livro que eu estava traduzindo. Vai ver foi por isso que eu perdi a manhã toda divagando sobre um beijo que não significou absolutamente nada pra mim.

- Ah, mas Nicholas até que é um nome que tem um certo charme, vai... – Sugeriu e eu rolei os olhos. – Tem aquele apelo forte e viril, sabe? “Nicholas”, soa poderoso na boca. – A Demi estava viajando – Tá, mas me fala do contexto? Do que exatamente você não gostou, exceto o personagem principal que te remete ao seu atual desafeto?

- Sinceramente? O problema nem é o Nicholas, dele eu até gostei. – Demi me encarou – Eu estou falando do cara do livro, só pra deixar claro!  - Fiz questão de completar - Pra mim, o problema da trama está em todo o universo criado para as personagens. Com todo o respeito que devo aos autores de determinados Best-sellers, nem preciso dizer que sempre achei clichê demais esses romances onde o personagem masculino é um milionário jovem e solitário, que apesar de ter tudo na vida, é infeliz e só encontra o real sentido de sua existência quando aparece a personagem principal feminina, por quem ele se apaixona perdidamente... Isso é uma baboseira! Será que ainda não perceberam que não acontece assim na vida real?

- Ah, mas de repente pode acontecer! – Demi defendeu

- É sério? De repente? Você jura que acredita mesmo nisso? – Questionei e Demi deu de ombros como quem diz “Por que não?!” – Ok, vamos usar o meu exemplo. Já tive a oportunidade de conhecer um bom número de milionários e fui pra cama com boa parte desse número. Sabe quantos deles se apaixonaram perdidamente por mim e vieram me propor casamento no dia seguinte? Nenhum. Sabe por quê? Porque estamos no mundo real e nesse mundo a última coisa que um cara desses está procurando é amor.  Agora se nos livros dissessem que tudo que eles querem é uma trepada boa aí eu iria ter que concordar!

Fiz a Demi quase se engasgar com o seu suco com tamanha franqueza do meu comentário. Não sei por que ela ainda não se acostumou com o meu jeito tão aberto de falar sobre sexo.

- Desse jeito você consegue detonar com qualquer romance! – Ela balançou a cabeça em descrédito.

- Por quê? Só por que é verdade? – Questionei – Ah, outra coisa: Você sabe o trabalho que dá conseguir um minuto de atenção de um cara desses?! E no livro a tal da Alicia só precisou aparecer em uma noite qualquer numa festa com um vestidinho brega e um sorriso ingênuo e já virou o verdadeiro amor do Nicholas... Patético! – Bufei - Mas o que mais eu poderia esperar de um livro intitulado: “Uma chance de romance”. Brega! Totalmente... Até o título.

- Quanto ao título concordo com você, meio brega mesmo. Podíamos mudar pra um título diferente, aproveitar a licença que temos que não nos obriga a traduzir literalmente. – Concordou – Ei, mas você tá enrolando e até agora não falou nada sobre esse tal “Nicholas”... Como ele é?

- Bom, como posso descrever fielmente... – Tentei encontrar as palavras - Ele parece ter saído de algum delírio imaginativo de uma mulher bêbada e carente, de tão perfeito. O cara é amável, gentil, cavalheiro e segundo as palavras da própria autora: lindo de morrer. Adora cavalos, vinhos e obras de arte e ainda por cima é podre de rico. Resumindo: Onde é a fila pra pegar um desses pra mim?

A Demi sorriu.

- E pra mim, também quero um! – Ela levantou a mão entrando na brincadeira – Mas mudando um pouco de assunto, ou melhor, mudando de Nicholas... Ele foi lá em casa ontem, estava meio desesperado, procurando por você. – Essa parte eu ainda não sabia, mas devia ter deduzido a julgar por todo o resto.

- E ele me achou. Foi até a casa do Glen e tentou arruinar o meu programa, acredita?! – Contei – Sinceramente, eu não sei o que deu no Jonas! Nós já tínhamos conversado e ele parecia ter entendido que eu não estou disponível, mas ele é um cara que sabe como ser persistente!

- Ele sempre disse que essa é uma das maiores qualidades dele. – Demi alegou

- Ah nisso eu acredito. Convencido do jeito que ele é... – Retruquei.

-É, e esse é um dos defeitos... Mas, acredite: ele ainda é o melhor cara que eu conheço! – Ela, como amiga, o defendeu.

- Isso é por que você não conhece mais ninguém! Já disse que você precisa sair mais, conhecer gente nova e também precisa fazer novas amizades! – Aleguei e Demi apenas riu e insistiu que o Nick era um cara bacana, que eu apenas precisava conhecê-lo melhor.

Talvez, de algum jeito, ele até fosse mesmo um cara bacana, mas eu não me daria o trabalho de conhecê-lo melhor, de qualquer maneira.

Depois do almoço voltei ao romance piegas. O desenrolar da história era totalmente previsível e eu já estava achando que autora estava usando palavras demais para descrever os muitos atributos do “Nick” – Aparentemente só existe esse apelido no mundo inteiro para o nome Nicholas – seus gostos, sua personalidade, mas principalmente o seu tipo físico. Em certo trecho ela gastou quase um parágrafo inteiro só pra descrever sua boca.

Tentei deter o pensamento, mas foi inevitável. 

Pensei em sua boca. 

Não a do personagem, a “dele”.

E o mais engraçado, não era no beijo que eu estava pensando e sim no sorriso. Aquele sorrisinho convencido e petulante que aparecia dançando em seus lábios sempre que ele cuspia alguma de suas besteiras patéticas e prepotentes.

O personagem do livro era um milionário refinado, mas o real, ele era um Nicholas bem mais interessante.

Se ele já é arrogante do jeito que é, sendo ele apenas um simples assistente, imagina só o tamanho do seu ego se ele fosse tão poderoso quanto Blaick.

Definitivamente, se ele fosse um milionário, seria o pior tipo.

Seria um babaca egocêntrico e pretensioso que acharia que tudo no mundo inteiro tem uma etiqueta escrito “à venda”, principalmente as pessoas. Nunca seria delicado ou gentil com ninguém, porque ia achar que as outras pessoas não eram dignas da sua “benevolência”. Também não teria tempo pra cavalos, vinhos ou obras de arte, pois estaria ocupado demais destruindo outros milionários até mesmo em suas horas de lazer...

E ele jamais se sentiria vazio por algo tão patético como não ter o amor da sua vida ao seu lado.

Afinal, quem precisa disso quando se tem dinheiro pra ter qualquer coisa que quisesse? 

E dinheiro ele teria dinheiro aos montes, poderia ter a mulher quisesse.

Poderia ter até mesmo a mim.

A maior parte das coisas que desejamos na vida, só as desejamos porque não podemos ter. 

Se ele pudesse me ter sempre que quisesse, será que ainda me desejaria?

Provavelmente, eu seria só mais uma diversão de uma noite qualquer, assim como fui pra todos os outros.

Eu o não o conhecia, mas nem precisava, pois já tinha conhecido muitos dele antes, com outros nomes, outros rostos e as mesmas intenções.

Sabia o suficiente sobre os homens como o Nicholas.

Sua fome por poder é implacável e o poder é a única coisa que pode fazer ele se sentir completo. 

Algumas pessoas não sabem a diferença.

A sutil e quase imperceptível diferença entre o dinheiro e o poder.

A maioria de nós acredita que o poder é consequência do dinheiro. Que com dinheiro, o poder surge quase que automaticamente, mas isso não é verdade. O poder é algo característico, ou você tem ou não tem. Um bom exemplo pra provar o meu ponto é observar o que diferencia aquela loira, líder de torcida e gostosa do colégio. O que faz com que todas as outras garotas desejem ser como ela? É os milhões na conta dos pais dela, ou a Mercedes importada, as roupas de alguma grife de moda? Não. Não é apenas isso, é todo o conjunto. É o jeito perfeito como ela reúne todas as características certas e as usa com perfeição pra subjulgar todos os outros e conseguir exatamente aquilo que quer. Isso é poder, e é isso que as outras garotas invejam nela, mas não sabem e acham que é apenas o dinheiro...

Alguns milionários jamais serão homens poderosos. Serão apenas homens muito, muito ricos. 


Já outros, como o Blaick, nasceram pra conseguir tudo o que quiserem.

Isso é o poder.

O dinheiro? Bom, ele é apenas uma parte da disputa pelo poder.

Uma parte bem importante, é claro.

A parte que faltava ao Nicholas.

(...)

 Demi chacoalhou uma caixa de bombons finos bem no meu campo de visão, interrompendo a minha divagação que deveria ser uma leitura/tradução.

- De onde você tirou isso? Ganhou foi? – Encarei-a com um sorriso.

- Ah, claro que ganhei de um dos meus milhares de admiradores, que sempre me mandam mimos caros como esse! – Ela rolou os olhos, irônica, enquanto abria a caixa e pegava um bombom – São do cretino do Ched. – Ela disse o nome do nosso chefe, que todos nós detestávamos, cheia de desprezo – Um dos clientes enviou pra ele e já que seria eu quem escreveria o cartão de agradecimento de qualquer forma, achei que a gente merecia isso bem mais do que aquele imbecil! – Estendeu-me novamente a caixa e eu peguei um.

Demi estava sentada em sua cadeira de qualquer jeito e havia tirado os sapatos de salto e soltado o coque dos cabelos. Olhava para a tela sem nem piscar e digitava como uma louca.

Olhei ao redor e notei que não havia mais ninguém além de nós duas. Só então percebi que já tínhamos extrapolado o horário do trabalho há pelo menos duas horas e eu acabei nem percebendo.

- Olha só a hora, é melhor irmos pra casa! – Levantei-me – Vamos levar a caixa de bombons do Chad e no caminho a gente compra aquele vinho branco maravilhoso que a gente bebeu outro dia. – Peguei a caixa sobre sua mesa.

- Só um minuto! – Ela continuava digitando freneticamente – Estou trabalhando num projeto novo e preciso finalizar esse parágrafo, aproveitando a inspiração, mas concordo totalmente com esse negócio de vinho!

- Livro novo? – Fiquei curiosa

- Mais ou menos. – Ela sorriu – É só uma ideia ainda, não tenho muita certeza se consigo desenvolver, pois é muito diferente de qualquer coisa que eu já escrevi.

Senti sua insegurança, pelo jeito como a frase soou.

- Demi, você é a melhor escritora que eu conheço. Inclusive, você é melhor que a maioria dos autores que a gente publica aqui! – Olhei-a com confiança – Tenho certeza que seja lá o que for essa sua ideia, você vai dar conta!

- É que da ultima vez... - Interrompi

- Da ultima vez, o Chad não publicou o seu livro porque ficou morrendo de inveja. – Retruquei – O cara é um completo imbecil! Estava com medo de perder a assistente que faz todo o trabalho dele.

- Pode ser, mas ele tinha razão sobre o livro... – Ela rebateu – Não era tão bom! A pior parte é que ele sempre tem razão sobre tudo! Por isso é o editor chefe e eu só a assistente!

- Demi, a gente vai lançar uma droga de livro de romance na semana que vem! – Lembrei-a – É a história mais sem graça que já li, tenho certeza que qualquer coisa que você escrevesse seria melhor! Aliás, qualquer coisa que o cara que faz entrega de pizza escrevesse seria melhor também! – Revirei os olhos - O Chad é um babaca pretensioso e você precisa parar de coloca-lo num pedestal como se ele fosse bom no que ele faz porque ele não é! Ele só tem um emprego ainda por sua causa! Porque fica encobrindo os erros dele!

Eu despejei tudo de uma vez e Demi apenas respirou fundo.

Ela detestava aquele imbecil, mas por algum motivo ela sempre acabava fazendo o que ele queria.

E mais uma vez eu notei uma relação disfuncional de poder.

Nesse caso, Chad tinha o poder, ou pelo menos era nisso que ele tinha feito a Demi acreditar.

- Acho melhor a gente ir pra casa, agora! – Ela levantou-se – Eu estou precisando de uma taça daquele vinho que você me prometeu.

(...)

Seguimos para casa e no caminho compramos o vinho, duas garrafas. Nosso plano era bastante simples: Encher a cara e comer bombons finos até que não conseguíssemos mais lembrar nossos próprios nomes ou até que começássemos a vomitar, o que acontecesse primeiro.

Ao sairmos do elevador encontramos o nosso vizinho Mateo.

- Oi meninas! – Ele cumprimentou com seu largo sorriso. Ele nos abraçou e beijou como de costume. E como de costume o beijo e o abraço em mim foram mais longos que o recomendável – Vejo que a noite será divertida! – Referiu-se as garrafas em minha sacola.

- Com certeza! Você sabe o que dizem: Muito trabalho e nenhuma diversão acabam com qualquer um! – Demi alegou sorrindo.

- Ouvir isso logo da pessoa mais viciada em trabalho que eu conheço, isso sim é uma surpresa! – Mateo brincou

- Sou cheia de surpresas, meu bem! – Demi piscou um olho para o rapaz, que pareceu ficar bem sem jeito com o gesto, mas não o suficiente.

- Bom, eu também estou procurando por diversão... – Tentou – Vocês bem que poderiam me chamar pra festa.

A Demi me olhou com um sorrisinho. Eu sabia que ela achava o Mateo um gato e vivia tentando bancar a casamenteira pra cima de mim, então antes que ela dissesse qualquer coisa eu intervi.

- Desculpe, mas essa noite é só das meninas. – Tentei ser o mais gentil possível ao dispensá-lo – Mas vamos chamar todo mundo uma próxima vez... Eu prometo! – Sim, eu disse todo mundo em ênfase de propósito. 

Eu já estava indo em direção a nossa porta para abri-la e o Mateo apenas se despediu um pouco sem graça e seguiu seu próprio caminho enquanto nós duas entravamos no nosso apartamento.

- Às vezes eu me pergunto se você tem uma pedra de gelo no lugar onde deveria estar um coração! – Ela fechou a porta atrás de si. 

- Lá vem você! – Eu disse indo procurar o saca-rolhas enquanto Demi se livrava de seus sapatos de salto e me seguia até a cozinha.

- Me diz o que mais que você quer, hein? – Ele me encarou – O Matt é um cara ótimo e pelo amor de Deus, todo mundo nesse prédio sabe que ele tem uma queda por você! – Exclamou

Ela pegou as taças no armário e eu finalmente achei o abridor. 

Seguimos para a nossa miniatura de sala e Demi jogou-se no sofá desabotoando sua camisa social. Eu também me livrei dos meus saltos tão absolutamente lindos quanto desconfortáveis e já que a folgada estava tomando o sofá todo sentei-me no chão, com as costas recostadas no sofá.

Entreguei-lhe uma taça cheia de vinho e enchi uma pra mim também.

- É um completo desperdício! – Ela continuou - Juro que se fosse comigo, você ia estar aqui bebendo esse vinho sozinha agora, porque eu iria estar lá no apartamento do vizinho fazendo alguma coisa realmente interessante com aquele homem completamente gostoso!

- Nós duas sabemos bem que você é só garganta! – Encarei-a e ela me deu língua. – Além do mais, não é que eu não concorde sobre ele ser gostoso, porque ele é, mas não posso fazer isso com o Matt.

- Ué, por que não? Seria só sexo casual, duvido que ele iria se importar! – Ela rolou os olhos.

- Seria isso pra mim, mas não seria pra ele. – Respirei fundo – O Matt gosta de mim, Demi. Não estou dizendo que ele me ama, ou que está apaixonado, mas ele sente algo por mim, e eu sei disso. – Encarei o vinho em minha taça - Se a gente tivesse alguma coisa, qualquer coisa, ele poderia criar expectativas e querer algo mais. Algo que alguém como eu não pode dar, você sabe, por causa do que eu faço. – Suspirei -  Aí ele iria querer uma chance e eu não iria dar. Não iria poder dar. Ele iria querer saber o porquê e eu iria dizer o que? Algo tipo: Desculpe Matt, mas não posso sair com você porque eu sou prostituta!

- Miley... Me desculpa, eu nem pensei nisso, eu só... Eu sou uma tonta! – Demi pediu desculpas

- Não, não é não. Você é a minha melhor amiga – Olhei-a com carinho – Você é uma das únicas pessoas que sabe realmente o que eu faço e consegue não pensar apenas nisso quando olha pra mim, e eu te adoro por isso! – Ergui a minha taça para brindarmos – Além do mais eu tenho certeza que você não iria me trocar pelo primeiro vizinho gostoso que aparecesse e eu estou apenas retribuindo o favor!

Nós duas rimos.

- Não sei não, do jeito que as coisas estão feias pro meu lado ultimamente, eu acho que te trocaria sim pelo nosso vizinho gato! – Ela bebeu uma golada de vinho

- As coisas só estão feias pro seu lado porque você ainda não apareceu com esse seu decote sexy pelos corredores – Apontei pros seus peitos e a Demi riu

- Ah é, com certeza eu iria fazer sucesso por aqui... Mas como “a tarada do 506”! – Ela rolou os olhos rindo e eu quase engasguei com o vinho.

- Bom, você podia experimentar dar uma passada lá no apartamento do Matt quando a gente terminar essas garrafas... Acho que ele não iria achar ruim não, conhecer a tarada do 506! – Sugeri

- Bem que eu queria, mas aquele ali é batalha perdida, só tem olhos pra você... Mas pelo menos eu ainda posso me consolar fantasiando com aquele deus nórdico do outro dia, como é que ele chamava mesmo: - Pensou -  Ah é, Glen! – Ela suspirou – Aquilo sim que é um homem!

- Preciso concordar... E sabe, acho que vocês se dariam bem, apesar dele não ser o tipo certo pra nenhuma garota.

- Amiga, o meu tipo certo é qualquer um que tenha aquele rosto! – Ela riu safada – E aquela bunda linda!

- Isso é verdade. É linda mesmo, já vi ao vivo! – Eu disse e Demi me apedrejou com uma almofada.

- Não acredito que você ainda recebe pra ir pra cama com um homem lindo daqueles, puta merda! – Reclamou

- São os ossos do ofício, fazer o que... – Nós rimos e bebemos mais

(...)

A nossa segunda garrafa estava quase no fim e a caixa de bombons já estava vazia há algum tempo. Demi e eu estávamos completamente altas conversando e rindo sobre uma série de bobagens sem sentido algum. Na maior parte do tempo nós duas éramos bastante responsáveis então era simplesmente divertido, pelo menos de vez em quando, só rir um pouco e falar um monte de besteiras. Acho que é disso que as boas amizades são feitas.

O único problema é quando se está bêbada você acaba sempre falando demais...

- ... Ok. Eu tenho um segredo – Demi fez uma pausa dramática antes de continuar – Eu cuspo no café que levo pro Chad. – Ela tentou ficar séria, mas pra mim a gargalhada foi inevitável

- Cara, você é inacreditável! – Falei – Então quer dizer que o nosso chefinho bebe seu cuspe todas as manhãs?

- É, e esporadicamente, algumas tardes também. – Ela bebeu mais ainda rindo da cena em sua mente – Mas agora é sua vez de contar um segredo! – Ela preencheu nossas taças com vinho.

- Eu definitivamente não tenho nenhum segredo melhor do que esse! – Argumentei – Ok, ok eu vou contar um segredo... – Respirei fundo –  Ontem, depois que eu saí do programa com o Glen, o Nick me beijou. – Demi arregalou os olhos me encarando

- Não acredito! Eu sabia! – Ela berrou – Sabia que ele estava afim de você!

- É claro que não, Demi! – Interrompi negando a parte sobre o Jonas estar realmente interessado em mim, pois já havia descartado completamente essa possibilidade – Mas a parte que é segredo é que... Eu acho que gostei.

Continua...

2 comentários:

  1. Eeeee.... vcs voltaram. Estou mega feliz. Adorei o capítulo. Passou tanto tempo sem postar q eu tive q dar uma relida na história toda pra lembrar de tudo. Não demora pra postar por favor. Bjos!!!!!

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    1. Finalmente voltamos! hahaha eu também tive que reler os capítulos e aí ressurgiu a vontade de continuar a escrever com as meninas. Obrigada pelo comentário, Jeel <3 é sempre bom ter um feedback!!
      E não demoramos a postar nao haha Depois dessa capítulo mara da Amy, eu acabei de postar hoje o capítulo 18.
      Espero que goste :)
      Beijo

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