Capítulo 14
Miley
Narrando
A expressão de incredulidade do Nick
era impagável! Ele, com certeza, esperava que qualquer outra pessoa fizesse
esse trabalho, menos eu. O seu orgulho ridículo era o principal responsável por
isso. Sabia que de jeito nenhum ele queria dar o braço a torcer para depender
de mim, principalmente para um trabalho daquele porte. E confesso que uma das
principais motivações para vir aqui entregá-lo pessoalmente era me divertir em
pisar um pouquinho no seu ego enorme e mostrá-lo que o seu tão prezado e bem
feito trabalho estava dependendo de mim naquele momento. Eu sei. Poder é viciante.
-Quanto que te devo? – ele perguntou
meio seco, mas dava para perceber que o seu olhar sobre mim estava longe de ser
indiferente quanto ele forçava em sua voz. Seus belos olhos não mentem.
-Não vai sair barato, Jonas. Mas eu
sei o quanto você está nervoso, então eu vou ser legal com você. – eu disse sem conter meu sorriso debochado. –
Podemos negociar o preço da minha tradução depois. Apresente esse relatório e depois conversamos
sobre o preço. Pode ser?
O seu estresse era visível. Apoiou
uma de suas mãos sobre o quadril e a outra passou pelo seu rosto em um gesto
nervoso, antes de responder. Ele estava mesmo criando muitas expectativas com
essa reunião. – Eu estou ótimo.
-Claro que está. – ironizei, antes
de alisar o seu braço, num súbito de empatia. – Vai dar tudo certo. Você fez um
bom trabalho.
Nick me encarou sem acreditar no meu
gesto. Acho que nem eu acreditei muito no que disse. Ele não merecia essas
palavras, mas era a pura verdade. Aquele trabalho está bem minucioso, bem
estudado, escrito, planejado e calculado num nível mais alto de
profissionalismo e inteligência. Sei também o quanto Blaick pode ser exigente com
os seus funcionários, mas imagino que aquilo iria muito mais além. Havia uma
guerra fria entre gigantes ali. A diferença é que só um deles está no poder.
-Obrigado. – ele respondeu meio sem
graça e confesso que achei adorável.
–Conversamos então depois?
-Pode ser. Mas não pense que vai
conseguir escapar. – eu apontei meu dedo em riste.
-Eu não sou homem de fugir do que
devo. – ele respondeu, finalmente ignorando a sua ansiedade para me encarar nos
olhos. – E nem do que quero.
Senti um duplo sentido na sua ultima
frase. E puta merda, como eu senti. Senti através de uma onda de calor tomando
o meu corpo mais uma vez essa semana. Quando dei por mim, já havia dado mais um
passo em sua direção e ele mais um, nos deixando numa distancia perigosa demais
para o nosso autocontrole.
-Que bom, porque eu não deixaria você
fugir. – eu me diverti com a ideia de entrar na brincadeira dos duplos
sentidos. Passeei minha mão delicadamente pelo seu terno, numa desculpa para
poder tocar o seu tórax. Tenso, Nick acompanhou a minha carícia com os olhos,
como se qualquer toque já fosse tentação demais para ele. – Nem que eu tivesse
de amarrar você. –a última frase eu deixei escapar num mais baixo, muito mais
envolvente e ambíguo. Minha mão se enrolou na sua gravata e a segurou
firmemente.
Nick abriu um sorriso sedutor e
senti o ar ficar cada vez mais denso. –Se for assim, acho que arriscaria tentar
só para ver do que você é capaz.
Eu queria muito beijar aquele homem.
Nossa, como queria! Aquela boca maldita me chamando para provar um pouco mais.
Brincar com o perigo, enquanto beijo o Nick no mesmo trabalho do que o meu
cliente, em pleno horário de serviço. Quanto
mais eu lembrava o quão proibido aquilo era, mais tentada eu ficava em acabar
com aquela distancia entre nós de vez. Eu soltei aos poucos a sua gravata azul.
-Eu sou capaz de muita coisa quando
me provocam desse jeito... – eu disse, observando Nick lamber o próprio lábio
inferior. Lembranças do que aquela
língua maravilhosa fez comigo tomaram a minha cabeça. O modo como ele encarava
minha boca já entregava o quanto ele também queria aquele beijo.
Sua mão suavemente tocou a minha cintura
e ele deu mais um passo para frente, sem quebrar o contato visual comigo. Seu
toque hesitante mostrava que dessa vez ele estava disposto a estudar a minha
reação, esperando mais outro tapa no rosto, caso avançasse demais. Ah, mas eu
não estava disposta a interromper o seu avanço. Não mesmo! Porém mantive minhas
mãos sob controle. Sabia que se àquela altura eu o acariciasse mais, o tocasse
demais, eu não conseguiria parar.
Estava pronta para sentir sua boca
novamente beijando a minha, quando ouvimos o barulho de alguém chegando. Eu e
Nick nos afastamos rapidamente, já reconhecendo o barulho daquele andar e a
conhecida voz. Richard abriu a porta e suspirei aliviada por termos sido
atentos o suficiente.
À primeira vista, Blaick nos encarou
confuso. Ele não esperava minha presença ali logo hoje. Eu ainda estava vestida com a minha roupa do
trabalho e pouca maquiagem, bem diferente da Lola que ele estava acostumado a
encontrar.
-Lola? O que faz aqui hoje? – ele
perguntou curioso. –Poderia ter me encontrado
no meu escritório, se quisesse.
-Eu estava conversando com o Nick
sobre a sua agenda hoje. –eu menti, enquanto caminhava em sua direção e
coloquei minhas mãos em sua nuca e arranhei de leve a sua pele, num carinho que
eu sabia que ele gostava. - Queria fazer uma surpresa para você, mas não quero
atrapalhar os seus compromissos...
Ele sorriu com a minha desculpa e,
delicadamente jogou o meu cabelo por trás do meu ombro e acariciou o meu rosto,
me observando. –Está diferente.
-Achei melhor vir mais discreta,
para não chamar a sua atenção. – me aproximei do seu ouvido e sussurrei. -Pode
levar a sua “nova estagiária” para ensinar umas coisas no seu escritório, se
preferir. – eu abri um sorriso sacana para ele e Richard claramente gostou da
ideia, me puxando pela cintura para perto de si.
-Você fica linda de qualquer jeito.
– ele comentou, com um sorriso divertido no rosto. – Mas hoje eu tenho
convidados importantes e o prédio está a todo vapor. Além do mais, tenho um voo
para Londres daqui a pouco. Mas com certeza, eu vou querer matar saudades de
você quando chegar daqui a dez dias... –
suas mãos acariciaram as minhas costas. –Podemos tirar uns dias juntos numa
casa de praia em Hamptons.
-Seria ótimo. Tudo o que você
quiser, Richard.
-Senhor Blaick. – ouvi a voz do Nick
soar mais ríspida e séria do que o comum, mas eu sabia o quanto ele se
controlava para não deixar claro o seu repentino mal humor.
Me virei para ele, assim como o seu chefe.
Nick estava puto e eu mordi o lábio, tentando não sorrir ao perceber que esse
mal humor era por minha causa.
-Falta pouco tempo para o seu voo. O
seu motorista já deve está lá embaixo o aguardando.
Blaick encarou o seu relógio para
verificar a hora. – Tem razão. Os relatórios já estão prontos, Nicholas? – Nick
apenas mostrou os relatórios que eu tinha acabado de entregar, como resposta. -Quero um feedback da reunião assim que eu
desembarcar. Não me decepcione.
-Sim, senhor. A reunião será um
sucesso. – ele respondeu confiante.
-Assim espero. – Richard respondeu
antes de voltar a atenção para mim. –Adorei a visita surpresa, minha linda. Sua
presença é sempre um prazer, mas eu tenho que ir.
-Boa viagem. – eu disse antes de
receber um beijo apressado de Richard. Nick deve estar para morrer! E não nego
que era a boca dele que eu queria estar beijando agora.
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Nick Narrando
A reunião tinha sido um sucesso. Os
representantes de Hirawa se entusiasmaram com os ótimos dados e estudos que eu
tinha apresentado. Como eu planejava, eles fecharam o contrato ali mesmo.
Estava tudo programado por Blaick para que eles decidissem definitivamente a
parceria num contrato quando ele estivesse de volta daqui a dez dias, mas os
japoneses não perderam tempo. Além do mais, tempo é dinheiro. E isso eu estava
certo que não estavam dispostos a perder. Estava planejando contar a notícia
pessoalmente, só para ver a cara de bocó que o me chefe faria. Mas eu sei que
amanhã, assim que ele se recuperar da viagem, ele vai querer as notícias em
detalhes do que aconteceu hoje por telefone.
Já era noite, mas as ruas ainda
estavam movimentadas. Normal, para a cidade que nunca para. Adentrei o The
Diner, um restaurante e cafeteria daqui por perto, conhecido pelos seus famosos
brunchs. Combinei de encontrar com Miley nesse lugar agora, depois do meu
expediente. Eu sei que ela estava disposta a cobrar um alto preço pela
trabalhosa tradução de ultima hora e eu sei que o serviço não foi pouco. Além
do mais, estava com um excelente humor para pagar um generoso valor.
Pedi um café, panquecas, ovos e
bacon para a garçonete, enquanto a Miley não chegava. Eu estava morto de fome e
não é para pouco. Estava tão atarefado e preocupado com tudo dar certo que nem
mesmo havia almoçado. Hoje eu treinaria meu box em casa e deveria estar, no
mínimo, bem alimentado.
Quase fomos pegos hoje. Lembrei do
quanto eu queria beijar aquela maldita no meu escritório e por pouco Richard
não nos pegava no flagra. Com certeza, se isso acontecesse a Miley estaria
encrencada e eu com certeza, no olho da rua. Lola virou a menina dos olhos de
Richard. A verdadeira obsessão e a mais preferida diversão dele. Ver o seu
assistente beijando com vontade a sua garota o deixaria possesso. Ele não
pensaria duas vezes antes de acabar comigo. Assim, como eu queria acabar com
ele quando o vi a beijando na minha frente, como se eu não estivesse ali.
É ridículo, eu sei. Para quem já viu
ela sendo chupada em cima da mesa do escritório do chefe, a ver beijando agora
não deveria ser grande coisa. Mas eu estava louco para tê-la de novo. Aquele
clima de hoje pedia para aquela boca estar beijando a minha e não a dele.
Realmente, o tesão por aquela mulher
já está me perturbando de vez.
O meu pedido chegou e poucos minutos
depois, Miley adentrou o restaurante. Ela ainda estava com a mesma roupa de
ainda cedo, com o rosto mais cansado. Mas ainda sim, continuava estupidamente
linda. Ela se sentou à minha mesa e encarou o meu prato com uma
expressão de estranhamento.
-Brunch à essa hora? - foi a
primeira coisa que ela disse.
-Sempre é hora para um brunch. – eu respondi,
antes de tomar um gole de café. Eu deveria estar como um morto de fome, porque
ela sorriu com a minha reação. Essa mulher deveria ser proibida de sorrir de
jeito para alguém. É de enlouquecer qualquer um.
-Bom, vamos ao que interessa. – ela disse
se acomodando mais no banco acolchoado. –Quero 900 dólares pela tradução.
-4 mil dólares pelo programa e agora
quase mil pela tradução!? Você quer me ver sendo despejado do meu apartamento,
é?
-Primeiro, quem insistiu pelo
programa foi você. – ela disse se apoiando com os braços sobre a mesa,
aproximando o seu rosto. – Segundo, não
é culpa minha que você quis fazer um relatório enorme para depois traduzir. Eu
cobro por página. Nada mais justo. E você ainda ganhou aquele prêmio
exorbitante em Las Vegas, pode muito bem bancar. – roubou um bacon meu e comeu. – Como vai
pagar?
-Tudo bem... Vou te pagar só porque
me quebrou um galho. – eu suspirei, tirando o meu talão de cheques. Preenchi o
cheque e entreguei a ela.
-Tem mais um coisa que preciso de
falar. – ela disse guardando o cheque em sua carteira e depois voltou a sua
atenção a mim. – Você sabe que aquele programa com você o primeiro e último né?
-Por quê? – ela não gostou? Não é
possível que ela finja tão bem. Fala sério, ela estava adorando!
-Por pouco eu perco de vez o vinculo
com Richard por sua causa. Glen foi pedir para John para abrir uma exceção para
ele também, assim como abriu para você. –presumo
que John deve ser o seu cafetão. – John quase
me cortou a cabeça fora, tá bom? E eu preciso desse dinheiro! Então não insista
mais nisso, por favor.
Ela precisa do dinheiro? Precisa
para que? Então ela vai transar com o Glen mais uma vez?
-Você abriu uma exceção para ele? –
eu me entreguei à curiosidade.
-Abri. Vou me encontrar com ele
depois de amanhã e depois disso eu vou precisar ser totalmente exclusiva,
entendeu? John está na minha cola agora depois desse deslize. – ela roubou mais
um bacon meu. – Tenho que ir.
Ela foi embora, me deixando com uma
curiosidade inquietadora. Eu sei que ela falou demais e nem mesmo percebeu.
Estava cansada e estressada demais para perceber que me disse informações que
antes não queria me contar. Por que ela precisa do dinheiro do Blaick?