segunda-feira, 4 de setembro de 2017

One More Night - Capítulo 7

Narrado por Miley

Ouvi a Demi chamar meu nome e dizer mais alguma coisa que eu só ignorei. Eu estava no banho e geralmente eu demoro bastante no banho, porque é o único momento em que eu consigo realmente relaxar.

Pensei em tudo que aconteceu durante o fim de semana em Las Vegas e deixei que água caísse e lavasse o meu corpo.

Estive pensando sobre como as pessoas costumam dizer que prostitutas querem uma “vida fácil”. Acho que elas não fazem a menor ideia do que “fácil” realmente significa. Lembro-me de como a minha vida era antes da Lola e fácil é a melhor definição: Morava com meu pai e a minha irmã Brandy numa cidadezinha no interior de Nashville, ia ao colégio, tinha os meus amigos e trabalhava meio período numa cafeteria do meu bairro. Isso era fácil. Mais que isso, era simples.

Eu era feliz.

Não posso dizer que sou infeliz agora, mas o sentimento de plenitude, de descontração e despreocupação que eu costumava sentir todas as manhãs, se foi. Duas profissões, duas rotinas completamente diferentes e eu tendo que me desdobrar em Miley e Lola. Tive que aprender a lidar, criar alguns limites, dar a Lola sua própria personalidade ou então eu não conseguiria mais me separar dela.

Saber quais eram as coisas da Lola e quais eram as coisas da Miley.

Saber quem era quem: A escritora e a prostituta.

Definitivamente se me dissessem há um tempo que essa seria a minha vida no futuro, eu teria rido. Teria gargalhado.

No início eu achei até que não iria dar conta, mas com o tempo a gente vai se adaptando a quase qualquer coisa. Nem se quer me lembro da cara do meu primeiro cliente, mas lembro de uma coisa, lembro da sensação.

Lembro de chorar e de achar que era o pior ser humano na face da terra. Lembro da ânsia de vomito ao lembrar do que fiz na cama com um homem casado. Lembro de passar uma hora no banho depois tentando limpar a sujeira que por mais que eu esfregasse, não saia.

E aqui estava eu, apenas sobrevivendo. Tentando manter a Miley intacta e ao mesmo tempo pensar como Lola: Prostituição é só um trabalho como qualquer outro. Tão digno quanto um padeiro ou um professor. Só que paga melhor...

Eu queria ser mais parecida com a Lola, ás vezes. Queria ser tão decidida e fria o tempo todo. Mas como Miley eu era uma garota pateticamente frágil, e não frágil do tipo menininha, eu só era sentimental demais. Sensível a ponto de ainda me sentir suja pelo jeito como eu ganho a vida.
Acho que a parte mais difícil da prostituição é exatamente essa: No fim da noite quando você volta pra casa sozinha e suja, não importa o que você faça, quantos banhos você tome, ainda vai se sentir suja.

É uma sensação que nunca vai embora.

Fui até o meu quarto e troquei de roupa. Vesti shorts jeans confortáveis e gastos e uma camiseta larga da minha banda favorita: Guns N’ Roses. Esse definitivamente era um loook da Miley, não havia nada da Lola nele, nenhum brilho, glamour ou sofisticação. Não era nada sexy, pelo contrário era largo e desleixado e me fazia sentir completamente exorcizada, como se por pelo menos algumas horas da minha vida, a Lola não existisse e eu pudesse ser só eu mesma.

Enrolei a tolha nos meus cabelos pra secar e caminhei a passos lentos até a sala, ouvi algumas risadas e a Demi parecia ter companhia. Eu estava com um pouco de fome e tinha planos de pedir comida chinesa delivery.

Só então lembrei que a Demi tinha me dito alguma coisa...

-Demi, o que você disse mesmo? Eu estava no banho e... – Juro que sentir o ar de todo o ambiente ficar rarefeito. Era ele, o assistente enxerido do Blaick, sentado ao lado da minha melhor amiga, tomando café e conversando como se fossem amigos de longa data.

Como foi que ele conseguiu meu endereço?

O que poderia querer aqui?!

Ele me olhou do mesmo jeito que eu, surpreso, e eu quis gritar pra acordar logo desse pesadelo.

- Seu nome é Miley? – Questionou ficando de pé e me encarando como se não acreditasse que eu era real.

Que essa situação era real!

- É Nick, o nome dela é Miley e está aí a sua resposta pra “porque eu não te apresento minhas amigas!” – Ela o puxou de volta pro sofá, ao seu lado - Você devia poder ver sua cara agora. –Sussurrou - Limpa a baba porque assim você me mata de vergonha, Jonas! – Demi virou-se em minha direção com um sorriso – Ah Miley, deixa eu te apresentar, esse aqui é o Nick. Eu e ele estudávamos juntos lá no Texas e agora estamos os dois aqui em NY, e ele está morando aqui há um pouco mais de um ano e acho que é a primeira vez que veio me visitar, né Jonas? – Ela cruzou os braços.

Demi parecia não ter percebido o clima estranho. Lancei um olhar para o Nick pedindo para que ele não dissesse mais nada e por algum milagre divino ele pareceu entender e aceitar...

- Desculpe, mas não tenho tido muito tempo livre e nem você que eu sei. – Os dois sorriram um para o outro e ele voltou a me olhar e me estendeu a mão - É um prazer finalmente te conhecer, Miley. Já ouvi falar muito sobre você. – Ele também me lançou um olhar sugestivo, como se me pedindo pra entrar no jogo dele.

- O prazer é meu. – Respondi apertando a mão que ele me ofereceu e a Demi tratou de continuar com as apresentações.

- A Miley trabalha comigo lá na editora.  – Contou – É a nossa tradutora.

- Tradutora? – Ele me olhou

- É, essa garota é um prodígio, ela é fluente em mais de seis idiomas, acredita? – A Demi me gabou e eu me senti um pouco constrangida – Mas na verdade a Miles, assim como eu, também quer ser escritora num futuro não muito distante, né My?

- É, esse é o plano. – Falei sem muita empolgação.

- E você, Nick? – Demi virou-se para o amigo - Ainda não me disse exatamente o que você faz aqui em New York. Soube por sua mãe que você trabalha como economista de uma multinacional, mas fora isso não sei mais nada de você.

- Eu trabalho na empresa de um bilionário inglês que é praticamente o dono do mercado imobiliário de New York. – Vi que ele evitou citar o nome do Blaick - Você não deve conhecer porque ele é muito reservado, quase não aceita entrevistas e detesta ser flagrado por paparazzi, mas quase tudo aqui nessa cidade é dele. – Não sei porque ele olhou pra mim quando disse isso.

- humm, parece ser um homem bem importante, o seu chefe. – Demi parecia bem empolgada com a visita do amigo – Onde você está morando? – Ela parecia particularmente interessada.

- No Brooklin. Morei em Manhattan logo que cheguei aqui. Eu adorava morar lá, mas com  toda a correria do trabalho ficou uma rotina impraticável morar fora de NY...

Eu pedi licença e voltei pra dentro do meu quarto. Precisava de uns minutos pra pensar em alguma coisa, ou pelo menos pra respirar. Penteei o cabelo e passei alguma maquiagem, batom vermelho. Precisava de alguma coisa da Lola pra me sentir mais forte.

Voltei pra sala.

- Demi, vou sair pra comprar alguma coisa pra jantar. – Interrompi - Você vai querer o quê? – Perguntei

- Quero uma yakisoba, mas a gente pode pedir pra entregar aqui, Miles. – Ela ia pegar o celular em sua bolsa.

- Não! – Quase gritei – Eu prefiro ir lá buscar, é aqui perto, e ainda aproveito e faço uma caminhada. – Sorri pra disfarçar – Vai querer alguma coisa diferente pra beber ou posso trazer o de sempre?

- Coca-cola, claro! – Ela riu

- Bom, eu também já vou Demi. – Nicholas levantou-se – Está ficando tarde e eu preciso levantar cedo amanhã. Foi um prazer te rever, marshmallow . - Eles se abraçaram

- Marshmallow? – Eu quis saber.

- Era o meu apelido no colégio. Eu era “fofinha”, ok? – Ela caminhou até a estante na sala e pegou alguma coisa, um livro, um anuário – Esse é o nosso anuário. Olha só isso aqui!– Demi apontou para uma foto onde estavam registrados ela, o Nick e uma outra garota. Acho que era a bailarina casada de Las Vegas, a tal Dani.- Esse nerd ridículo! - Na foto eles não pareciam ter mais de 16 anos, Nick provavelmente ainda estava na puberdade, a julgar pelo rosto coberto de espinhas, o cabelo encaracolado e os óculos de fundo de garrafa. A Demi era mesmo muito “fofinha”, mas eu já tinha visto fotos dela antes, por isso fiquei mais surpresa com o Jonas.

- É, os anos foram bons com a gente – Nick comentou tentando ser engraçado, eu acho.

- Principalmente com a Dani! Ela estava tão linda a ultima vez que a vi se apresentando no balé de New York...- Eu sabia! Era a bailarina mesmo...

- Bom, gente, eu já vou! – Falei já me direcionando até a porta.

- Eu te acompanho. – Nick veio atrás de mim – Pelo menos até a esquina.

Mal saímos pela porta e eu senti uma mão agarrando o meu braço.

- Acho que precisamos conversar Lola, ou Miley, seja lá quem você for agora!

(...)

Fiz os pedidos enquanto Jonas ainda me esperava sentado na mesa. Eu não queria falar, mas ele não parecia disposto a ir embora sem as respostas que ele achava que precisava ter...

Voltei e me sentei de frente com ele, encarando-o com apatia, como faria em qualquer outra ocasião. Sabia que por algum motivo isso o intimidava.

- Então, Miley, né?! – Ele riu – Deixa eu ver se eu entendi: você tem um outro nome, um outro emprego, uma outra vida... Sabe que é crime, né? Assumir uma outra identidade aqui em NY, da ultima vez que chequei, ainda era proibido.

- Só uso a minha outra identidade com clientes. Não seria confortável pra mim que eles soubessem meu nome, endereço e esse tipo de coisa. – Cruzei os braços. – Lola é apenas para minha segurança.

-Ah, então você também se preocupa com a sua segurança... Bom saber que esse é o tipo de coisa que uma vagabunda se preocupa. – Ele estava sendo irônico e conseguiu me irritar bem rápido. – Mas e a Demi? Porque está com ela? Ela sabe o que você é? Espero que nem tente influenciá-la por que...

- Olha aqui, eu não sei se você é babaca assim naturalmente ou se esforça especialmente pra mim, mas é melhor calar a boca! – Eu bati a mão na mesa com força – Demi sabe exatamente o que eu faço da minha vida e ela é minha amiga e me apoia, não significa que tenha a menor pretensão de fazer o mesmo que eu, então vamos deixa-la fora disso! – A forma assassina como eu o encarei, o fez recuar.

-Ela sabe sobre o Blaick? – Ele perguntou

- Ela sabe sobre todos os clientes, só não sabe quem eles são. É confidencial e eu sou paga, e muito bem paga, diga-se de passagem, para ser discreta.

-Por que faz isso? – Ele perguntou simplesmente e eu fiquei sem resposta pela primeira vez na minha vida – Quero dizer, você é bonita, é inteligente, fluente em não sei quantos idiomas, por que escolheu se vender e ir pra cama com caras ricos por dinheiro?

Eu respirei fundo. Havia um motivo, Hellen. Mas Nicholas não tinha que saber, ele não merecia saber. Pra ele eu não passo de uma vagabunda e ele me inferioriza por isso, então vamos colaborar com ele um pouquinho, pra que ele me despreze ainda mais.

- Porque eu não queria mais uma vida medíocre, Nicholas! – Sorri - A vidinha chinfrim que todos os meus ex me ofereceram. – Balancei a cabeça como se lembrasse de relacionamentos anteriores que nunca existiram – E você tem razão, eu sou bonita e sabe que ser prostituta paga muito melhor por esse atributo? – Eu o olhei cheia de desprezo – E aí eu percebi que eu estava perdendo meu tempo com caras fracassados que nunca iriam ser a sombra de um dos homens com quem eu saio hoje. – Me aproximei um pouco mais – E eu tenho pena deles assim como tenho pena de você!

Nicholas me também mantinha os olhos nos meus, mas parecia que o que eu tinha dito tinha impactado bem mais do que eu sequer poderia imaginar. Eu sabia que Nick era exatamente o tipo que eu descrevi. Ele era a sombra de um homem poderoso e almejava ser muito mais, perdeu a mulher que amava pra um cara rico também, então ouvir isso agora de uma “vagabunda” não devia ter sido fácil.

- Você não vai dizer nada ao Blaick sobre aquela noite em Las Vegas. Eu vou manter a merda do meu emprego e você a sua “segurança”. Fingimos que isso nunca aconteceu. Eu saio do seu caminho e você do meu. – Ele levantou da mesa e se foi.

Eu peguei o meu pedido, paguei e fiz o caminho de volta. Fiquei pensando na minha irmã e na Hellen, nos meus reais motivos pra continuar com essa vida e a Lola.

Flash Back On

Eu estava aguardando na sala de espera em uma clínica clandestina. Já tínhamos conversado um milhão de vezes, mas eu conversaria mais um milhão se fosse necessário, só que Brandy estava decidida a fazer aborto.

Ela tinha sido abandonada pelo babaca do namorado e estava morrendo de medo de contar a verdade ao papai sobre a gravidez. Eu não a culpo, pois eu também estava, mas eu não queria que ela abortasse, de jeito nenhum.

Sabia que seria difícil, mas valeria a pena.

Ela tinha acabado de ser chamada depois de ficarmos sentadas aqui por meia hora encarando um quadro de uma paisagem qualquer na parede da sala de espera.

Eu precisava fazer alguma coisa, dizer alguma coisa, mas o que?

Corri até a minha irmã que já iria pra sala onde seria preparada para fazer o procedimento de aborto e disse a primeira coisa que me veio à cabeça.

- HELLEN! – Gritei no corredor e ela ouviu. Virou-se pra me olhar – É um nome tão lindo pra uma menina, não acha? Hellen Marie Cyrus. O papai iria gostar desse nome. – A minha irmã me encarava atônita e eu senti uma lágrima molhando o meu rosto.

Ela não podia fazer isso com a Hellen. A gente nem se quer sabia que ela existia um mês antes, mas eu já a amava. Sabia que Brandy também e muito mais do que eu.

- Não faz isso, mana! – Pedi uma ultima vez.

Ela se moveu em minha direção e me abraçou, muito, muito forte.

- Obrigada! – Sussurrou pra mim no abraço.

Saímos da clinica sem responder nenhuma das perguntas dos atendentes ou enfermeiros sobre por que iríamos desistir daquilo...

Flash Back of

A Hellen tem 5 aninhos hoje em dia e é a criança mais linda e mais amada desse mundo. Infelizmente a doença dela não permite que ela tenha uma vida completamente normal, mas Brandy faz de tudo pra que ela seja feliz e eu também faço.

Ela é o meu motivo.

O meu pequenino e lindo motivo...

Entrei em casa e deixei o jantar sobre a bancada. A Demi já estava com a cara enfiada em um dos livros da editora, mas parou de trabalhar um minutinho quando me viu chegar com comida.

- Trouxe a coca? – Foi a primeira coisa que ela perguntou e eu assenti. Coca e café, os eternos vícios da Demi – E então, o que você achou do Nick?! – Ela tentou disfarçar um risinho.

- Normal, parece ser um cara legal. – Respondi com descaso.

 – Acho que ele ficou interessado em você!


Continua...



Nenhum comentário:

Postar um comentário